quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Critica da Semana - A Pele que Habito


  
Sentindo na pele
  
  Bom pessoal, essa semana foi uma semana com poucas estreias, pra falar a verdade só teve uma que foi A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1 e como não assisti todos os anteriores (só vi o primeiro), achei mais certo não fazer a crítica desse. Como não teve outra estréia a crítica dessa semana vai ser sobre o novo filme de Pedro Almodóvar (Volver) A Pele que Habito que assisti no final da semana passada e sairia essa semana como Crítica Extra, mas por falta de outra, farei ela como Crítica da Semana. Então vamos a ela...
  
  Uma das coisas mais comentadas sobre esse filme é que ele foge um pouco dos padrões dos filmes anteriores de Almodóvar por seu estilo mais de suspense/terror e sem muitos tons de humor como em outros casos. Mas como isso já foi largamente comentado desde sua estréia no Festival de Cannes não vou ficar comentando sobre isso, vou falar mais sobre o filme em si que apesar disso, tem outros pontos que remetem ao estilo do diretor.
  
  E para começo de conversa é necessário deixar claro que esse é um filme em que a história muda de rumos algumas vezes e que por conta disso não posso entrar muito em detalhes da história ou sobre muitos dos acontecimentos que se passam no filme, porque qualquer coisa a mais poderia entregar as surpresas que acontecem e que são a alma da história. Por isso pretendo aqui falar de outros pontos interessantes.
  
  Uma dessas coisas é a forma como o diretor trabalha o enquadramento de câmera, a história tem momentos impactantes que mexem com quem está assistindo, na intenção de fazer-lo sentir a cena seja nos momentos de tensão, angustia e etc. E para isso ele se utiliza de cenas em close, com detalhamento principalmente das expressões, emoções e objetos, deixando o espectador quase em contato direto com a os elementos da cena, dando a intenção de podermos quase sentir a cena, além de ver.
  
  A história não segue um direcionamento linear e mostra primeiro o que está acontecendo no presente para depois voltar mostrando os fatos que aconteceram para chegar ao que foi mostrado inicialmente. Essa reconstrução é conduzida de forma muito boa, aos poucos e permitindo que quem está vendo possa ir percebendo e compreendendo os acontecimentos aos poucos e por diferentes pontos de vista. Assim, a cada momento percebemos como, dependendo da ótica, podemos ter diferentes interpretações do mesmo evento. Tudo isso é conduzido por uma trilha sonora intensa que dá a cada cena o tom necessário de agilidade, paixão (ainda que não aquela que estamos acostumados a ver do diretor) e tensão na medida em que é necessário. Outra característica dessa forma de reconstrução é que permite alguns momentos de fácil entendimento e dedução do que vai acontecer dando tons de previsibilidade a cena, mas isso é utilizado para encobrir o próximo passo, fazendo com que a surpresa seja maior.
  
  Como apresentação, temos Antonio Bandeiras (Jogo Entre Ladrões) como o personagem principal Robert Ledgard que depois da morte de sua mulher, dedicou sua vida e sua carreira a criação da pele perfeita (resistente inclusive a queimaduras) para o ser humano, através da mistura de genes suínos com os genes de humanos. Mas como muitas outras coisas, isso é só a ponta do iceberg e a fixação do médico de praticamente recriar sua mulher em laboratório é o pano de fundo para coisas muito mais profundas. Merece também destaque no elenco a atuação de Elena Anaya (Um quarto em Roma) como Vera Cruz que consegue passar na medida toda angustia, paixão e estranheza que sua personagem exige.
  
  A forma como o filme é construído e cada etapa da história é apresentada e moldada aos poucos em cada cena, e o jeito como o rumo da história vai se montando diante dos olhos de forma tão clara, não dá pra dizer que o desfecho chega a ser uma surpresa. Mas a forma com é conduzido e apresentado compensa qualquer ponta de previsibilidade que possa aparentar. E ainda arruma tempo para fechar o filme com uma cena profunda e emotiva.

  
  Um filme que apesar da diferença no estilo, tem todos os toques que um diretor como Almodóvar pode trazer para uma história, ainda mais sendo a adaptação (feita a partir do livro Tarantula de Thierry Jonquet) também responsabilidade sua.


  
  Feito com efeito: Me desculpem mas mais uma vez essa seção vai ficar bem vazia, com já é costume nos filme desse diretor, os efeitos visuais não são destaque e não tem espaço. Assim eu vou evitar ocupar espaço e deixar essa seção pra próxima crítica.



: Falar de Almodóvar é falar de um profundo conhecedor da família, já esteve presente a cerimônias da Academia com algumas indicações e ganhou duas vezes (ainda que eu venha pedindo um autografo dele há anos pra aquele pretensioso almofadinha que eu chamo de primo e nada...).
  
  E falar de um filme dele é sempre empolgante, mesmo que os críticos às vezes fiquem divididos quanto a alguns de seus trabalhos. Nesse o que faço questão de destacar, e apesar das boas atuações de Bandeiras e Anaya o destaque não podia deixar de ser para a direção, é a forma como o diretor conseguiu construir um filme de terror na sua forma mais pura. Não aquele tipo de terror que estamos acostumados a ver com mortes cheias de sangue, assassinos encapuzados ou gritos e sustos, o terror aqui é psicológico aquele terror que não precisa de um corte brusco para um fantasma ou coisas do tipo, mas que vem da sutiliza e da frieza com que certas coisas são mostradas, de forma que não é um terror que te assusta em um momento ou outro e sim que causa sensações diferentes durante todo o filme como angustia, preocupação e surpresa, em que hora vc está a favor de um personagem e no momento seguinte está contra ele e vice versa. Na verdade esse é o terror na sua essência, aquele que não se apresenta pra quem está vendo, mas que vc sente sem saber exatamente o porquê ou de onde ele vem. E isso é uma coisa que poucos filmes (e poucos diretores) são capazes de fazer.
  
  Além da utilização de símbolos clássicos do terror de forma diferente e que se apresentam em pequenos detalhes, como o close de uma navalha sendo colocado por uma pessoa no pescoço da outra, mas não para cortá-lo e sim para barbear, ou a clara representação do personagem de Banderas como o médico maluco. Por essas sutilezas e pela forma como conduz essa nova empreitada que como muitos já disseram foge um pouco do seu estilo, mas que ainda assim atinge o público de uma forma diferente da que estamos acostumados em seus filmes, mostrando que é um diretor que não tem medo de sair da sua zona de conforto, é que eu digo que se A pele que Habito dividiu a opinião de publico e crítica, para mim não há duvida, Almodóvar é e sempre será um diretor surpreendente.

Ed: Quando uma obra tem a assinatura de Pedro Almodóvar já é motivo pra ficar de olho que provavelmente tem trabalho a vista. E nesse filme esperava que pudesse ter mais pontos, porque como ele mudou um pouco o rumo, tem meio caminho pra ter falhas, mas acabaram sendo menos do que eu esperava. Tem algumas pontas que ficam meio mal amarradas em alguns momentos é necessário encarar algumas coisas como licença poética para aceitar certas situações (o que diga-se de passagem eu não gosto muito), sim sim eu sei que não compromete a história do filme, mas ainda sim está ali não está?? Então eu posso comentar...
  
  Outra coisa que poderia ser dado uma solução melhor é a forma de colocar o personagem Zeca (o tigre) na história, a forma como ele consegue entrar na casa de Robert (Bandeiras) para a história poder acontecer em cima disso, é claramente uma ajeitadinha para favorecer o roteiro, porque ninguém deixaria...... ok ok...já estão me cutucando aqui pra eu não falar demais pra não entregar, enfim, quando vcs verem vão ver que foi uma forçadinha.
  
  Tem também o personagem de Eduard Fernández (Fulgencio) que fica meio perdido na história, ele tenta trazer o lado da discussão da falta de ética profissional no que o Dr. Robert anda fazendo, mas que fica fora de sintonia com o restante e acaba não contribuindo muito com a história, até porque ética é a ultima coisa que é possível discutir pelo caminho que o filme leva.




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