quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Critica Extra -- 2 Coelhos


  
Uma corrida alucinante por justiça
  
  Quando vi o trailer do filme que vamos comentar hoje, me chamou atenção por ser um filme nacional e que mesmo no trailer mostrava ter bastante efeitos de diversos tipos, e como isso não é uma prática muito comum nos filmes nacionais, pensei logo que precisaria vê-lo. Como sua estréia aconteceu na mesma semana que As Aventuras de Tintim primeira animação dirigida por Spielberg e vencedor do Globo de ouro de melhor animação, acabei indo ver a animação primeiro, mas não poderia deixar de lado o cinema nacional e por isso hoje falaremos sobre 2 Coelhos, do estreante diretor Afonso Poyart.

  O filme tem um bom ritmo e já começa com uma cena de bastante impacto para mostrar bem o ritmo frenético que vai ser mantido até o final. Com a utilização constante de efeitos visuais, era de se esperar que pudesse acontecer certo deslumbramento com isso e o restante da trama fosse deixado de lado. Bem não foi, a história é bem construída e procura colocar o espectador em uma trama bem elabora que tece uma teia de personagens e situações que a princípio não parecem ter muito em comum e que com o tempo se mostram muito mais interligados do que parecem.

  
  Edgar (Fernando Alves Pinto – Onde está a Felicidade) é um rapaz que depois de se envolver em um trágico acidente de carro se vê obrigado a sair por uns tempos do país para evitar ser preso. Em sua estadia fora do país ele, através de seus conhecimentos com tecnologias e computadores, elabora um plano que pretende colocar em prática agora que está de volta ao país. Ao ser assaltado dentro de seu carro por um motoqueiro armado, ele vê a oportunidade perfeita para colocar seu plano em prática e fazer um pouco de justiça com as próprias mãos em um país onde parece que ninguém mais se preocupa com essa palavra.
  
  A narração que acompanha quase toda história, no início fica interessante para apresentar os personagens principais, mas depois de um tempo poderia ser deixada de lado, sendo retomada só em um momento mais crucial perto do final, onde sua funcionalidade é ótima. Mas ao optar por manter ela praticamente em todos os momentos, chega uma hora que fica chato e parece que estão querendo te explicar tudo, como se vc não fosse capaz de entender.
  
  Isso talvez aconteça por uma preocupação do diretor com o entendimento geral da história, porque ao colocar muitos personagens ao mesmo tempo, cada um praticamente com uma história diferentes, aliado a utilização de uma narrativa totalmente não linear, realmente em alguns momentos deixa a história meio confusa e pode acabar fazendo com que alguns se percam tentando entender algum detalhe e tirando a atenção do espectador de outras cenas que seriam importantes.
  
  Talvez por isso a utilização da narração parecesse necessária, mas a verdade é que não muda muito, de qualquer forma a confusão pode acontecer e eu me arriscaria dizer até que é bem provável que algumas dúvidas surjam na cabeça dos espectadores no final, e lhe digo que algumas delas foram respondidas e talvez vc não tenha percebidos, mas algumas outras arestas realmente ficaram sem ser aparadas e coisas ficam meio no vazio.
  
  O elenco tem boas atuações de uma forma geral, com destaque especial para Alessandra Negrini (O Abismo Prateado) que está muito bem no seu papel de Júlia essa menina cheia de problemas psicológicos, Caco Ciocler (Família Vende Tudo) que tem menos espaço, mas cumpre muito bem o que se espera de seu personagem, Fernando Alves Pinto incorpora e cumpre bem o papel principal e no lado humorístico destaque para Thogun (Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora É Outro) com seu hilário personagem Bolinha e seus capangas.
  
  O uso de slow para valorizar as cenas é um recurso amplamente explorado, tanto para causar impacto, quanto para criar expectativas e valorizar momentos de interpretações, e atinge bem seus objetivos, sendo muito bem feitos e usados em momentos propícios dão a cena exatamente o tom que precisa, mas assim como na narração o uso excessivo, apesar de ser claramente uma linguagem escolhida pelo filme, fica exagerado porque acaba com a expectativa, em alguns momentos vc já fica esperando sabendo que vai ter um slow e isso quebra o clima.
  
  Apesar da quantidade de personagens soltos, conseguem convergir todos eles para o mesmo ponto, de forma inteligente e surpreendente até o final. O desfecho de tudo isso é bem interessante e a explicação do plano de Edgar, feita na forma que lembra um plano elaborado em desenho animado é bem interessante e mantém o ritmo didático do filme, com um final reflexivo e quase surpreendente. Excessos à parte é uma história bem construída que consegue entreter, fazer pensar e amarra bem o roteiro para contar uma boa história. Um salve a evolução visual do cinema brasileiro e a Afonso Poyart que soube se inspirar em influências americanas do gênero e usar bem suas referências para fazer um filme bem brasileiro.

  

  Feito com Efeito: Bem talvez um dos pontos mais altos desse filme seja a grande utilização de efeitos visuais. “Ahh Hiro, mas efeito todo filme tem...” Se tratando de um filme nacional isso não é verdade. Felizmente, de um tempo (bem curto) pra cá, o cinema brasileiro está começando a entender que é possível fazer um filme utilizando bastante efeitos sem esquecer o restante, como atores e histórias, mas a cultura do nosso cinema ainda é muito voltada para privilegiar a atuação, ou o roteiro e deixar os efeitos em segundo plano. Espero que esse seja só o começo e que as produções daqui pra frente, se inspirem em colocar mais efeitos no nosso cinema.

  
  Esse, porém é um caso onde consegue conciliar bem os dois lados, pode ter uma ou outra escorregada no roteiro aqui ou ali, mas mesmo assim consegue fazer boas cenas com efeitos visuais que completam muito bem a ideia do filme e ainda manter uma boa história e boas atuações. Vamos então aos principais destaques.
  
  O videografismo no inicio com animações de desenhos mostrando as carreiras que Edgar já pensou em seguir são bem interessantes e dão um ar descontraído depois da impactante cena inicial, um bom trabalho da equipe (e para os interessados, não posso garantir, mas muito provavelmente um trabalho desenvolvido em After Effects). 
  
E esses videografismos misturando animação com ilustração, seguem durante praticamente todo filme durante a apresentação dos personagens, o que fica muito legal e dá um ar de descontração a cada um deles. Lembrando até as apresentações de vídeo games. O que tem ligação direta com o estilo do filme já que em alguns momentos o filme realmente parece um jogo virtual, tendo inclusive uma aparição de Edgar como um personagem de um game no estilo Grand Thief Auto (GTA).
  
  Outras cenas que me chamaram muito atenção foram as que representam os ataques de pânico, sofridos pela personagem Julia que são todas bem legais e representadas de formas subjetivas. Com destaque especial para a cena onde ela trava uma luta de espadas com criaturinhas do seu subconsciente, em uma cena completamente feita por efeitos onde o cenário é virtual e foi tudo gravado em Croma key (fundo verde) e tem esses milhares de bichinhos fofos e ao mesmo tempo diabólicos, feitos em 3D e replicados pra terem vários e vários deles, com quem ela luta e parte ao meio com uma espada de samurai. Talvez uma das cenas com mais variedade de efeitos que eu já tenha visto no nosso cinema.
  
  Aproveitando que eu falei em 3D (e para encerrar que eu já to falando muito de novo), a modelagem 3D foi uma técnica bastante utilizada também e outra cena que fica legal é quando o personagem principal imagina levar um tiro, e sua cabeça se despedaça em várias pequenas partes digitais. Ahh e o Croma Key, que eu também citei, é utilizado em várias cenas de composição, para parecer outro ambiente ou para dar um grande efeito de slow, além é claro da utilização da câmera Super Slow que é um charme a mais.
  
  Nossa ficou grande essa parte, mas valeu a pena porque foi um bom trabalho feito pela equipe e ainda que não seja o tipo de efeitos que nos acostumamos a ver em Hollywood, acho que foi um grande passo para essas técnicas no Brasil.
  
: Os brasileiros já mostraram que sabem fazer filmes de ação com os dois últimos sucessos de bilheterias dos filmes Tropa de Elite, apesar do segundo deles ter falhado recentemente em ser indicado para concorrer ao Oscar desse ano, o sucesso que ambos foram nas bilheterias, já mostra a qualidade das produções daqui para esse tipo de filme. E 2 Coelhos apesar de ter uma linha de história bem diferente trás além da ação, os efeitos visuais.

  
  Mas fora isso tem outra parte que me chamou muita atenção no filme e que vai merecer meu destaque de hoje - a trilha sonora do filme - que é excelente e tem momentos em que participa da cena quase como alguém vivo, passa sentimento em cada musica, seja ansiedade, paixão, deslumbramento ou até mesmo humor como em uma utilização da musica “Sou Foda” sucesso da internet emplacado pelos Avassaladores e que faz parte da trilha oficial do filme. E ainda uma referencia ao filme Cidade de Deus quando um personagem sai cantarolando uma musica do filme.

Por essa capacidade de se integrar a um filme onde muitas coisas já acontecem e mesmo assim deixar sua marca é que o principal destaque hoje fica com essa ótima trilha sonora que conta com nomes como Titãs, Matanza, Radiohead, dentre outros e é regida por André Abujamra (Do Começo ao Fim). Grande trabalho e parte fundamental do filme.

Além disso, deixo uma menção honrosa para o trabalho de efeitos do filme, que já foi bem detalhado pelo chefe aí em cima, e que teve grande destaque no filme e no cenário nacional, um trabalho diferenciado para se ver.

Ed: Santo Cristo como esse povo fala!!! Aí chega na minha parte já tá todo mundo de saco cheio (com se eu me importasse muito com quem tá lendo... *pif*), mas enfim vamos a minha parte, prometo que tentarei ser sucinto (se vc não sabe o que é sucinto procura no Google).

  
Apesar da boa história, não deixar furos em filmes desse tipo é quase impossível (até mesmo nos gigantes hollywoodianos), então apesar do notável esforço para evitar, que chega a me surpreender porque geralmente os furos de filmes brasileiros são algo notável em qualquer produção, ficam coisas mal explicadas em alguns momentos principalmente na trama final.
  O cuidado em explicar cada detalhe do plano é superestimado e com isso outros acabam sendo deixados de lado e não ganhando a importância que deveriam. Assim como uma intenção de dar uma dramaticidade maior ao final da história ao envolver o pai do garoto em uma parte importante do desfecho é desnecessária, pois o pai passa apagado o filme todo, como um personagem sem muita importância para a história, fica mais como um apoiador do lado familiar de Edgar. Aí no final o trazem para o centro da ação para, duas cenas depois, ser esquecido de novo. Ou seja, podia ter ficado apagado com estava que passaria despercebido, mas do jeito que foi feito fizeram questão de mostrar que se esqueceram dele.

Existe também uma tentativa de se criar no personagem de Edgar um típico anti-herói que apesar de todos os defeitos, e de também estar tentando se dar bem na história, tenta fazer justiça para amenizar seus defeitos, mas esse conceito se perde no meio de tantos outros, só sendo claramente resgatado de forma explicita, no final quando é jogado na cara do espectador e tem mais impacto no lado poético e de bom rapaz do filme (e do personagem) do que no lado justiceiro.

De uma forma geral, uma palavra para sintetizar (to derrubando o pessoal hoje com palavras difíceis né? Deixa a aba do Google aberta galera) os problemas do filme é: Excessos. Como por exemplo, a quantidade exagerada de slowmotion, ou ainda as muitas reviravoltas que demoram tanto a acontecer que quando vem já estão meio fora do tempo, enfim coisas desse tipo que atrapalham o andamento da história e podem cansar um pouco quem não tem muita paciência, principalmente pela trama embolada que se apresenta e só se desfaz quase no final. Mas curiosamente é perto do final que o filme desanda mais, por sorte deles, já está acabando e o final revigorante salva de colocar tudo a perder.
  
  
 Para ficar ligado em mais Críticas  siga o @CinefilaArte e curta nossa Fanpage.
  


Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentem aí, suas opiniões são bem vindas e fazem o CA bem mais divertido, mas mantenham o bom senso ok? Perguntas serão respondidas sempre que possível...