quarta-feira, 18 de abril de 2012

Crítica Extra -- L’Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância


  
Atual com cara de clássico
  
  O cinema francês sempre foi conhecido por seu estilo artístico e refinado que se assemelha as obras de arte que se confundem com a história do país e também tem a característica de valorizar a beleza feminina, inclusive sendo um dos primeiros a explorar o nú artístico nas telas dos cinemas pelo mundo. L’Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância revive esse cinema de época através da história de uma associação comercial também muito famosa, os prostíbulos - ou casas de tolerância como o título sugere - sempre foram pontos frequentados pelo mais diferente tipo de pessoas, inclusive da alta sociedade francesa. E é para dentro desse ambiente, onde muitas coisas acontecem, muitas vidas se confundem, amores e ódios surgem e a esperança é o que faz com que essas meninas se produzam todas as noites para fazer seu trabalho. E o diretor Bertrand Bonello (De la guerre) nos leva para conhecer um pouco mais sobre o dia a dia de quem leva essa vida, por necessidade ou por opção, e o que elas esperam do futuro nesse filme que esteve presente na seleção oficial do Festival de Cannes.

  Subjetividade é a palavra que define o filme, muitas cenas simbólicas e que as imagens deixam mais para o público entender do que as palavras poderiam explicar e os detalhes estão sempre presentes para dar mais vida a uma cena. Seja através da repetição de planos de filmagem para diferentes cenas, ou mostrando uma mesma cena por mais de um ponto de vista. A estética de filmagem contém muitas cenas de câmera parada ou com pouco movimento, para valorizar a fotografia, a beleza da nudez feminina ou os ambientes antigos e com pouca luz. Ainda que a maioria das cenas aconteça dentro do famoso bordel L’Apollonide, os cenários variam entre salão de recepção, quartos e banheiros e em muitos momentos a falta de cenários diferentes representa bem a clausura de viver para agradar os prazeres sexuais dos outros.
  
  A nudez é uma constância no filme, representando bem esse aspecto dos antigos filmes franceses e as cenas de impacto, que na maioria surgem inesperadamente e são usadas em muitos momentos em combinação com a trilha sonora cheia de musicas clássicas, para causar a surpresa necessária nos momentos certos, como no final do primeiro ato, com uma cena forte que marca e muda a vida de uma das meninas da casa para sempre.
  
  Alguns elementos meio surreais são inseridos e ao mesmo tempo em que aumentam o valor artístico causam certa estranheza, como uma pantera trazida por um cliente que fica no sofá quase todas as noites, ou uma das meninas que imita uma boneca de porcelana para satisfazer os fetiches de um cliente. A interpretação da atriz Adèle Haenel (En ville) nessa cena como boneca, por sinal, é excelente.
  
  A beleza feminina, explorada ao limite da sensualidade, com toda a naturalidade da mulher francesa, fica muito bem representada pelo elenco formado por Hafsia Herzi (A Fonte das Mulheres), Céline Sallette (Além da Vida), Jasmine Trinca (Ligações Criminosas), Adele Haenel, Noémie Lvovsky (17 filles), Iliana Zabeth (L'adoption), além da estreante Alice Barnole e cada uma tem seu potencial e seu momento em cena, ainda que muitas vezes o foco fique na nova integrante do grupo Pauline (Zabeth), mas o lugar é como uma família e todas de alguma forma participam do funcionamento da casa e constroem amizades e descobrem a cumplicidade umas nas outras.
  
  Uma história em que a linearidade e a noção de tempo às vezes se confundem e mudam, não se apegando a necessidade de manter o curso direto dos eventos e onde a contradição está sempre em evidencia, uma cena que representa bem este aspecto que muitas vezes está presente é em um momento de profunda tristeza para as integrantes da casa (não vou dizer o que para não fazer spoiller) e que é encarado através de uma festa, onde todas elas bebem, dançam e se unem como forma de aliviar o sofrimento e a mistura de festa com tristeza, risos com lagrimas, gera uma contradição que mostra exatamente o conceito que é viver no limite entre o prazer e a frustração, de ter que sorrir para alguém ainda que morrendo por dentro e de muitas vezes basear sua vida em sentimentos alheios.
  
  Outra representação disso são as crianças, filhas dona do lugar que são criadas na casa, que durante o dia ganha um aspecto de lar para esses pequenos, apesar de tudo que acontece ali durante a noite, enquanto as estão dormindo. E a maios contradição de todas fica por parte de Madeleine (Barnole) que apesar de ser a que mais sofreu com os contras da profissão, é a única que é obrigada a estar o tempo todo “sorrindo”.
  
  Sejam bem vindos ao bordel L’Apollonide e se deixem envolver por esse universo de prazeres, amizades, tristezas, descobertas e emoções que é apresentado de forma artística e ao mesmo tempo crua e nos conduz para essa atmosfera que imperava na frança no início do século XX e que se pensarmos, até hoje está presente no modelo da sociedade mundial.
  
  Feito com Efeito: Esse é um filme em que por motivos óbvios se pré supões poucos, ou quase nenhum, efeitos visuais, mas para falar a verdade até rola uns videografismo legais em alguns momentos. Em algumas cenas a tela é dividida em 4 partes e cada uma mostra uma cena em uma parte da casa e inclusive acontecem transições de um quadro para outro. A cena ganha um ar bem interessante já que além de dar uma sensação de molduras de quadros que se mexem, ainda mostra as muitas atividades e situações que acontecem ao mesmo tempo no lugar.
  
  Esse é talvez a parte gráfica que chama mais atenção, tem outros pequenos detalhes, mas nada muito grande, por isso não vou me estender muito por aqui hoje.
  
: Esse é um filme que trata de um assunto já bastante utilizado no cinema, prostituição, mas ao contrário da maioria dos casos, a intenção dele não é denunciar os problemas e os males e dificuldades da profissão. Ele aborda tudo isso, mas de forma sutil, mantendo o foco nas meninas e em como eles convivem nesse ambiente e nele acham, apesar de todos os problemas, amizades e motivos para continuar acreditando que um dia sairão dessa vida, seja juntando dinheiro, ou conseguindo um homem rico que as tire de lá. Os problemas e infelicidades estão ali presente, mas são mostrados de forma sutil, quase como se já fosse algo natural para elas. Como nos momentos em que as vemos se arrumando e umas ajudando as outras, fazendo maquiagem entre si e amarrando vestidos umas nas outras. Quase como uma trupe de teatro preste a fazer um show. E isso fica ainda mais evidente com a entrada da nova integrante que as outras se encarregam de ensinar o funcionamento da casa e de quebra explicam aos espectadores.
  
  Essa abordagem fugindo dos conceitos comuns nesse tipo de filme é o grande destaque da produção que evita a todo custo entrar nos clichês do gênero, ainda que tenha referencias dos filmes franceses de época. Esses detalhes podem ser vistos nos belos figurinos cuidadosamente escolhidos e nas belas maquiagens que ressaltam os valores individuais de cada uma das meninas.
  
  A própria “cafetina” foge do tipo exploradora e preocupada apenas com os lucros, é claro que o dinheiro é o que rege tudo, afinal ela comando um negócio, mas demonstra a todo tempo preocupação com as suas meninas e promove a união do grupo, principalmente nos momentos de folga e descontração que vivem.
  
  Mas o que dá todo o charme da obra e deixa tudo com esse ar clássico e ao mesmo tempo com nuances atuais e consegue deixar várias cenas com cara de verdadeiras obras de arte é a fotografia muito bem trabalhada de Josée Deshaies (Curling) que já havia trabalhado com o diretor desse filme em O Pornógrafo e que se sai muito bem nesse novo trabalho, onde utiliza em muitos momentos câmeras paradas, como na porta de entrada do lugar ou em corredores, para valorizar a fotografia, além da bela ambientação de luz. E utiliza muito bem em certos momentos a combinação espelhos e câmeras utilizando os reflexos como forma de reproduzir emoções e olhares.
  
  Com esse conjunto de coisas não é difícil entender porque o filme esteve na seleção oficial do festival de Cannes e teve 4 de suas atrizes pré-selecionadas para o prêmio César na categoria Melhor Atriz Emergente: Iliana Zabeth, Alice Barnole, Celine Sallette, Adele Haenel.
  
  Um filme que não é para o grande público, mas que certamente tem seu valor e que pra quem gosta do gênero de drama francês certamente não pode deixar de ver.
  
Ed: Os franceses gostam muito desse estilo de filme-arte, mas é o tipo de filme que nem sempre é bem aceito, principalmente nos circuitos convencionais, mas levando em conta que o gosto popular não é uma coisa que poso colocar como problema do filme, vamos ao que interessa.
  
  A história se passa sempre no mesmo lugar e sobre um mesmo aspecto, sei que a proposta é essa, mas fica um pouco grande demais para falar sempre da mesma coisa, o filme tem cerca de duas horas e meia e podia fácil mente ter um pouco menos sem perder conteúdo, quando vai chegando pro final já está um pouco cansativo e talvez até por esse excesso de tempo algumas cenas parecem ficar um pouco vazias e sem sentido, parece que estava ali, mas não acrescentou grande coisa à história, foi só mais uma forma de usar os recursos artísticos da estética do filme.
  
  Outra coisa que me incomoda são algumas das cenas que devem causar impacto, tentarem ter esse efeito através da utilização de cortes bruscos nas cenas e na explosão do áudio para dar aquele famoso “sustinho”, mas foge do propósito fazer isso, já que não é filme de suspense barato, o impacto deve vir naturalmente pelo próprio conteúdo da cena.
  
  E para finalizar, para quem já viu o filme...Só eu lembrei do Heath Ledger (Batman - O Cavaleiro das Trevas) algumas vezes durante o filme?!? (rir =  inferno).
  
  
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