quinta-feira, 17 de maio de 2012

Crítica da Semana -- O Corvo

  
  Um conto sobre o contador de histórias
  
  A Crítica dessa semana foge um pouco do padrão do blog, o filme de hoje não é uma estréia dessa semana, ele ainda vai estrear amanhã (Sexta-feira dia 18/05), mas como fui assistir na cabine de imprensa, já estou trazendo a critica antes pra vcs e sempre que possível farei desse jeito.
  
  Dadas as explicações, o filme de hoje tem como personagem principal um grande escritor americano chamado Edgar Allan Poe que se tornou um grande sucesso escrevendo contos sombrios e macabros no século 19. Nos seus últimos dias de vida, Poe foi encontrado nas ruas de Baltimore onde morava, em estado catatônico, perturbado e delirante e segundo depoimentos ficava repetindo o nome “Reynolds”. Pouco tempo depois veio a falecer sem poder nunca explicar o que havia acontecido, seus últimos dias de vida sempre foram um grande mistério e o diretor James McTeigue (V de Vingança), neste thriller de suspense policial, levanta uma hipótese do que supostamente teria acontecido para levar o escritor a este triste fim e a história passa por Poe ter vivenciado o terror de seus contos à flor da pele, essa é a história que vemos em O Corvo.

  Acompanhamos Poe nos últimos dias antes de sua morte, ele está quebrado financeiramente e passando por uma crise de criatividade que não lhe permite escrever nada que desperte o interesse do editor do jornal local a publicar sua obra. Enquanto isso um terrível assassinato de uma mãe e sua filha de apenas doze anos chocam a polícia de Baltimore, mas o detetive Fields, interpretado muito bem por Luke Evans (Os Três Mosqueteiros) percebe que não se trata de um crime comum já que ele havia ouvido falar de algo muito parecido e de fato o crime havia sido perfeitamente detalhado em um conto de Allan Poe.
  
  Visto que o escritor, que é interpretado por John Cusack (Conspiração Xangai) não pode ser o autor dos crimes visto que o segundo assassinato aconteceu enquanto era interrogado pela polícia, ele se torna aliado do detetive para conseguir prender o inescrupuloso bandido que está se utilizando de seus contos com pano de fundo para cometer crimes terríveis.
  
  O clima do filme é absolutamente sombrio e cheio de mistério no ar, exatamente como um conto do escritor e as ruas frias de Baltimore são o cenário perfeito para tais elementos ganharem vida, é quase como se víssemos um conto do escritor na tela, mas tendo o diferencial de ter o autor como personagem da história. Porém achei que ficou faltando um pouco do tom de agonia e perturbação que geralmente os contos dele são imersos, mas isso não chega a deixar o clima da história ruim.
  
  E tendo em vista que os assassinatos são retirados linha por linha das histórias do escritor e alguns deles, também acabam, de certa forma, servindo de enredo para outros contos de Poe, o filme cria essa atmosfera onde realidade e ficção se misturam a todo o momento, tanto para os personagens da história quanto para quem está vendo que passa a questionar se realmente é possível que algumas das histórias do autor possam ter sido criadas em situações como aquela.
  
  Ficou confusa a explicação? É mais ou menos por aí mesmo, algumas confusões vão acontecer realmente durante o filme, a história se passa em poucos dias e tudo acontece bem depressa, esse é um daqueles filmes que se vc piscar mais demorado durante uma fala ou outra, acaba perdendo alguma explicação ou o que levou a determinada conclusão. Especialmente nas cenas com Cusack e Evans, com as mentes afiadas do inspetor de policia e do escritor muitos diálogos podem não ser de fácil compreensão especialmente para quem não tiver um conhecimento prévio da obra de Allan Poe, já que o tempo todo são feitas citações de suas obras.
  
  Mas não me entendam mal, nem de longe estou querendo dizer que é um filme só para quem conhece os livros do escritor, isso no máximo vai tornar as coisas mais interessantes, mas independente disso, temos uma ótima história e quem gosta do gênero, mistério policial com certeza vai gostar, os passos da investigação são bem amarrados e nos levam bem pelas pistas, passando de uma morte a outra enquanto a ação se desenrola e o mistério principal vai chegando perto de ser solucionado. E apesar do grande clima de suspense, conseguiram encaixar boas piadas, ainda que sutis, em momentos importantes parra deixar o clima mais leve e não se tronar nada muito apelativo, tendo até uma pequena alfinetada na classe dos críticos bem interessante.
  
  Falando em não se tornar apelativo, o diretor tem o cuidado de não cair nos clichês de filmes de assassinatos com sangue jorrando pra todo lado e violência gratuita, o clima de tensão é mantido com o enredo da história e não com excesso de matança. Na verdade só uma das mortes é mais sanguinário, talvez para agradar quem gosta desse estilo.
  
  Um filme que certamente mostra que houve bastante cuidado na sua criação e que cada detalhe foi pensado para se encaixar, tantos nas histórias escritas por Poe, quanto na história de sua vida. Cusack tem boa atuação, salvo alguns momentos meio exagerados, e contribui muito para o crescimento da história, inclusive com a forma de falar que adota para o escritor onde cada frase dita parece um verso de um poema. Assim como a ótima maquiagem que tem papel fundamental para trazer o clima pesado que os assassinatos pedem.
  
  Para quem já conhece e gosta dos livros, como eu, provavelmente vai gostar da aparição do escritor nas telonas e o desfecho dá uma explicação para sua morte, digna de um mestre do suspense e dos contos policias, e para quem não conhece, mas gosta desse gênero, certamente vai ser uma boa forma de ser apresentado e vai querer conhecer mais sobre as obras desse grande escritor, mas por incrível que pareça, a sensação que fica é que tinha potencial para ser bem melhor.
  
  Feito com efeito: O filme não é do tipo que tem efeitos visuais muito chamativos, mas tem algumas cenas legais, sendo uma delas logo na abertura do filme com uma passagem de uma lua que estamos vendo no céu para o reflexo da mesma em uma poça d’água no chão. Alguns outros efeitos de destruição em momentos críticos e névoa para deixar os cenários mais sombrios também podem ser reparados, mas nada muito chamativo.
  
  Na verdade a cena que contém maior quantidade de efeitos visuais são os créditos finais que são bem legais na verdade, onde várias formas em 3D e efeitos de luz se cruzam e se entrelaçam formando a imagem de um corvo, pássaro que dá nome ao filme, que por sua vez referencia um dos contos mais famosos de Poe Os Corvos.
  
: O roteiro é muito bem elaborado de forma a encaixar os detalhes dos crimes e dos contos do escritor, o que demonstra um profundo conhecimento da obra de Poe por parte de quem escreveu, já que é necessário tal conhecimento para poder fazer as coisas se adequarem do jeito que foi feito. Os pouco experientes roteiristas Ben Livingston, que faz sua estréia nessa função (apesar de ter atuado em muitos filmes na carreira), e Hannah Shakespeare (Obsessão, no Brasil saiu direto em DVD) fizeram um excelente trabalho fazendo a história se adaptar muito bem aos contos e ao estilo de história que o próprio Poe escrevia, além de conseguir manter os elos com a vida real do escritor.
  
  Por isso, o relativamente novato casal de roteiristas fica com meu destaque de hoje e posso dizer que começaram com o pé direito, pode ser um bom começo para ambos que em breve podem estar ganhando mais espaço entre os grandes escritores de Hollywood, até porque a roteirista já trás no sobrenome o peso de um grande artista literário, apesar de, até onde eu saiba, não ter nenhuma ligação com o escritor inglês, mas se tiver a veia artística dele em breve estará com mais projetos pela frente. 
  
Ed: Apesar de filmes sombrios e com assassinatos sempre despertarem meu interesse, vamos direto ao assunto que minha função aqui é marretar, certo?
  

  O grande problema do filme está em ser muito atrelado aos contos do escritor Allan Poe (de quem sou fã devo dizer, adoro as ideias dele...), apesar disso ter suas vantagens para a história, quem não conhece e nunca leu os contos com certeza vai ficar perdido em alguns momentos, até porque a maioria das citações são apenas faladas pelos personagens e algumas ficam até meio subentendidas e quando uma citação vem no meio de um dialogo muitas vezes se perde em meio a um emaranhado de palavras e isso pode ser um pouco incomodo às vezes.

  
  Também achei que falta profundidade na hora de explorar alguns dos contos que na literatura têm um grande peso, mas que no filme são tratados muito superficialmente, com flashes ou pequenas cenas amontoadas, alguns poderiam ter sido bem melhor utilizados. Faltou ao diretor um pouco de ousadia para deixar as coisas mais densas e conturbadas como era realmente a vida de Poe, o que refletia diretamente em suas histórias, talvez por receito de isso deixar o filme menos popular e por consequência, menos vendável. É o comercio atrapalhando a qualidade como muitas vezes acontece. 
  
  Os clichês de filmes de suspense estão presentes em alguns momentos e poderiam ser evitados e já de cara atribuo muito disso a inexperiência da dupla de roteiristas. O que também pode ser problemático é que um olhar mais atento pode deixar a história previsível, já que é possível, principalmente para quem gosta do gênero e é atendo aos detalhes, imaginar de antemão quem é o assassino, mas acho melhor parar as especulações por aqui, já que não tenho a intenção de fazer spoiller...  
   
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