sexta-feira, 13 de julho de 2012

Coletiva do filme Na Estrada de Walter Salles



  Hoje só se fala do Dia Mundial do Rock e da Sexta feira 13, mas hoje também estreia nos cinemas o filme Na Estrada novo filme do diretor brasileiro Walter Salles (Diários de Motocicleta) e na semana passada a Playarte, distribuidora do filme organizou uma coletiva de imprensa sobre o filme na qual estavam presentes o diretor, além da atriz brasileira Alice Braga (O Ritual), que também está no filme, e o nós é claro estivemos por lá. Confira tudo que rolou na coletiva na matéria da nossa enviada especial Natália Soares Trotte.
  
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  Quando se é jovem existe a necessidade em ampliar os conhecimentos e possibilidades diante do mundo, há uma busca por aventura e liberdade constante, principalmente em 1949, uma época onde os bons modos eram fundamentais, ainda mais para as mulheres. O modelo quadrado de ordem estabelecido nos Estados Unidos após a segunda Guerra Mundial aumentava a necessidade dos jovens em transgredir. Isso é mostrado no filme dirigido por Walter Salles, Na Estrada, baseado no livro “On the Road” escrito por Jack Kerouac.
  
  No filme os jovens Sal Paradise (Sam Riley - Pior dos Pecados), Dean Moriarty (Garret Hedlund - Tron: O Legado) e Marylou (Kristen Stewart - Branca de Neve e o Caçador) embarcam em uma aventura ultrapassando todos os limites, com muita droga, álcool, sexo livre e jazz. Na época os jovens viam as drogas como forma de entender o mundo.
  
  Sal é um jovem escritor que tem a vida transformada após a chegada de Dean, um jovem aventureiro que tem por objetivo encontrar seu pai. Marylou é namorada dele, possui apenas 16 anos e representa de forma bem impactante para a época a transgressão do que é considerado bons modos, vivendo essa aventura com os rapazes.
  
  A intenção do filme segundo o diretor Walter Salles que leu o livro aos 18 anos é mostrar a importância de explorar o mundo à flor da pele e desenvolver a consciência crítica dos espectadores incentivando-os inclusive a lerem o livro de Jack Kerouac, que foi o ponto de partida para a existência do filme. ”Eu espero que as pessoas releiam e voltem ao livro e aquelas que nunca o leram tenham o prazer de descobri-lo.”, disse Salles.
  
  O livro influenciou todos os movimentos de vanguarda da metade do século XX, despertando sentimentos diferentes em quem o leu. Francis Ford Coppola (Tetro) foi um deles. Na década de 90, o diretor e produtor ensaiou um projeto para um filme, que acabou se concretizando em 2012 levado a tela por Walter Salles mais de meio século depois do lançamento do livro.
  
  O filme já estreou na França, Holanda, Bélgica e estreia agora na próxima sexta (13/07) no Brasil. Em dezembro chega aos Estados Unidos, irá para mais de 30 Festivais e mais de 20 países até o final de dezembro, inclusive já foi exibido no festival de Munique e de Cannes.
  
  “Uma alegria muito grande foi quando mandamos o filme um pouco antes do festival de Cannes para Jerry Cimino (fundador e dono do museu do Beat), que luta  pela cultura Beat há 40 anos. Ele escreveu a 1ª crítica sobre o filme e é muito gratificante ver como alguém que conhece essa cultura de dentro reage. Foi um presente pra gente.” Conta Walter ressaltando que também deve estar preparado para todas as formas de divergência.  “Acredito que a leitura do filme vai mudando com o tempo, nunca deve ser feito um balanço imediatista em relação a isso. Em latitudes diferentes as leituras também são diferentes.”
  
  Foram feitas muitas pesquisas para a composição do filme, Walter Salles na época em que achava que  o filme não ia existir fez uma montagem desse material para o festival de São Francisco de 1 hora, mas são mais de 100 horas de entrevista com pessoas que viveram naquela época. Por possuir um material extenso o diretor diz que pretende fazer um documentário com essa pesquisa. “Quero que ele exista como uma peça independente do filme.”- E ainda ressalta: - “como a gente pôde entrevistar muitas pessoas também é um depoimento sobre essa geração. O que foi mudando ao longo desse processo de pesquisa foram as camadas de compreensão da história do livro, do contexto político daquela época, do impacto que eles foram ter anos depois, da influencia que aquele movimento acabou tendo”. E conclui: - “Muita gente me perguntava por que eu achava que acabou o movimento Beat, mas movimentos não acabam se transformam em outra coisa.”   
  
  O elenco do filme também conta com uma atriz brasileira Alice Braga, interpretando Terry. Salles enaltece a participação da atriz no filme, diz que imaginou uma Terry luminosa que tivesse uma leveza. A intenção foi que o encontro de Sal com Terry enriquecesse sua trajetória na história, mostrando que as pessoas se desejam, se amam, se separam e que está tudo bem.  Logo pensou em Alice para assumir o papel. Contou ainda, que ela assumiu o papel de co diretora na cena de amor entre Terry e Sal. Walter, queria que no momento da cena o  filho da personagem estivesse sonolento e  apenas Alice conseguiu passar as orientações para a criança.
  
  A atriz se mostra emocionada e diz ter sido um sonho trabalhar com o diretor. “O Waltinho me mandou um e-mail contando sobre o projeto e me convidou, eu fiquei muito emocionada e de cara falei: - Eu quero fazer”. A atriz contou que já tinha lido o livro aos 17 ou 18 anos e logo foi ler de novo e mostrou grande empolgação com a equipe do filme: “Quando fui filmar com eles aconteceu uma coisa ruim para produção, mas boa para mim. Tivemos um problema com a locação aonde eu ia filmar, foi preciso achar outro lugar, a produção teve que remanejar tudo, mas para mim foi ótimo, porque eu filmei com eles durante três ou quatro dias mas acabei ficando três semanas com a equipe e pra quem ama cinema e ama equipe foi o melhor presente que eu pude ter, ficar ali vendo tudo de perto dessa jornada que eles estavam vivendo”.
  
  Alice ainda enaltece Walter revelando que foi um grande aprendizado como atriz trabalhar com um ídolo e também, como parceira, poder observar os outros atores de perto “como, por exemplo, o trabalho do Garret e ver o envolvimento passional dele com seu personagem. Foi muito especial, uma jornada boa de participar”. Diz Alice, com um sorriso contagiante.
  
  
  Em declaração exclusiva ao CA Walter respondeu nossa pergunta: 
  Você pensa em fazer o próximo filme no Brasil e quem sabe até levá-lo para o Oscar representando a nação?
  
  “Eu nunca faço dois filmes fora.” - Respondeu prontamente o diretor – “O próximo filme eu quero filmar no Brasil. Ou na América Latina, que virou um pouco da extensão da minha casa depois de Diário de motocicleta.” Revelou Walter, realçando que não se deve fazer um filme pensando no Oscar. “Você tem que fazer primeiro um bom filme, depois o que acontece é conseqüência”.
  
  Abaixo segue a entrevista de Walter Salles na coletiva:
  
  No livro se detecta uma critica a juventude da época, meio conformista e um pouco consumista. Em relação o público de hoje, você sente que há uma necessidade  de interferir nesse cenário que, de certa forma, repete esse consumismo desenfreado e acomodação?
  
  O livro descreve uma epopéia que começa em 47, pós 2ª guerra e início da Guerra Fria. Numa sociedade norte americana que tinha vencido a batalha contra o nazismo e começava um processo de industrialização acelerada e de consumismo. Então chega essa geração formada por filhos de imigrantes. Quase todos com 18 anos e querendo ser escritores, muitos nem falavam inglês. Kerouac por exemplo, começou a falar inglês só aos 7 anos. Era uma geração que olhava para esse país de outra forma e que não encontrou espaço lá dentro, por isso colidiu com ela.
  
  Dentro disso, a história descreve um estado de transição dessa juventude para a fase adulta, a busca é por todas as formas de liberdade, das quais muitas estavam sendo negadas a eles naquele momento e com isso vinha o desejo de quebrar todos os tabus da época. Tudo isso deságua numa revolução comportamental que também é política.
  
  Também se trata da importância de explorar o mundo a flor da pele, o que faz com que você desenvolva uma consciência critica e, a partir disso, se torna possível mudar um pouquinho do mundo. Como vai ser percebido hoje eu não sei. Você nunca sabe. Quando eu tiver lançando o próximo filme eu falo.
  
  Hoje em dia a temática do filme não é uma novidade, ainda que para o jovem o mundo está sempre sendo descoberto, mas não há mais essa ingenuidade que havia na época. O filme aparenta mostrar um olhar mais maduro, mais distanciado do Na Estrada. A impressão que passa é que você não filmou na estrada e sim como foi feito o livro Na Estrada.
  
  Como todo livro cada um de nós tem uma relação afetiva e pessoal com o livro, mas uma coisa que fica é o momento de transformação interna que todos passam aos 18 anos, querendo ampliar as possibilidades de frente ao mundo. Independente da época em que se vive tem um momento em que você quer pular sem paraquedas, isso não tem idade. Os relatos de formação você encontra em qualquer geração e é isso que eu acho que dá uma qualidade muito contemporânea ao filme. Recentemente, eu recebi uma carta de uma menina de 16 anos do interior de São Paulo sobre o livro, foi um dos relatos mais comovente que eu já vi até hoje.
  
  O livro é um relato dentro de um relato e o roteiro conta a história de um livro sendo escrito. É isso que dá unidade a história. O personagem do escritor usa o Dean como o combustível daquele livro que ele está escrevendo. Na Estrada é também um relato sobre o fim da estrada, porque aquele país se estabeleceu com a conquista territorial na direção do oeste e eles vão à procura dessa última fronteira, só que ela não existe mais e o livro fala disso.
  
  Por que a opção da câmera principalmente no incio do filme ser muito fechada no rosto dos atores?
  
  A câmera tenta pulsar junto com os atores, mostrar esse sentimento profundo que há dentro deles.
O Roberto Muggiati, escritor e grande conhecedor da cultura beat, disse que o Kerouac usava a máquina de escrever como extensão do corpo dele, um pouco como um cara que tocava jazz utilizava o saxofone também como extensão do seu próprio corpo e o resultado disso é uma narrativa muito sensorial. A idéia da câmera mais colada aos personagens vem dessa percepção.
  
  Como foi a escalação do elenco e como foi trabalhar com  a atriz que fez crepúsculo, Kristen Stewart?
  
  O processo de casting foi feito de forma muito independente. Através da indicação de Gustavo Santaolalla (Biutiful), grande músico e compositor, descobri a Kristen Stewart, vi a atuação dela no filme de Sean Penn (Na natureza selvagem). Gostei muito do filme e da atuação dela que tem algo de enigmático, um personagem realmente expressivo.
  
  Eu tive um encontro com a Kristen e ela sabia muito do livro e do personagem de Marylou, entendia que foi um personagem que colidiu com os tabus da época e combateu esses tabus, uma personagem que está à frente do seu tempo. 
  
  Eu queria que o filme integrasse momentos de improviso porque a escrita do livro é muito marcada pela estética do jazz. Kerouac quando chega à Nova York aos 19 anos começa a descobrir pessoas bem a frente de seu tempo que trouxeram a improvisação acima da razão e ele procura levar esse tipo de estética para a literatura.
  
  Um pouco antes de Marylou - personagem de Kristen Stewart - chegar a São Francisco, um dos caras que pega carona começa a cantar uma música. Ele é cantor chama-se Jake La Botz, nos encontrou em Nova Orleans. Eu e a equipe vimos um show dele dois dias antes da filmagem, ele cantou essa música e eu achei interessante, pois descrevia a personagem da Marylou, toda a trajetória dela estava de alguma forma na canção. Eu pedi para que ele fizesse uma versão a capella da musica e avisei só ao câmera e ao cara do som que teria a improvisação.
  
  No final do dia de filmagem, voltando para o hotel ele começa a cantar e a gente começa a filmar, a Kristen percebe que tem a ver com a personagem dela.  Apesar dos atores já estarem acostumados com esse tipo de improvisação porque já tinham acontecido outras vezes, a inteligência e reação que ela teve naquele momento mostra o quanto ela estava em sintonia com sua personagem. Kristen Stewart é uma atriz sensível e inteligente.
  
  Como foi o processo musical do filme?
  
  Foi uma mistura porque não houve tempo de fazer uma pesquisa tão extensa. O Gustavo Santaolalla interpretou musicalmente e me mandou algumas sugestões, colaborou com músicos de diferentes épocas, mas muito do que se houve de música no filme é sugestão do próprio livro. Kerouac entendia profundamente de jazz.
  
  Um ponto recorrente nos seus filmes é a questão da estrada, exploração de mitos e a paternidade, até que ponto é uma escolha consciente?
  
  Essa idéia da perda da referencia do pai, sobretudo se você é filho de imigrante, é deflagrador de alguma coisa. Você ter que reinventar a ausência do pai faz com que você tenha que ter uma postura diferente diante do mundo.
  
  Realmente eu procuro mostrar que essa busca pelo pai é também uma busca por um país, você percebe isso em “Central do Brasil”, por exemplo, dentre outros filmes. Em On the Road você também pode ver a história de jovens que perderam seus pais e estão indo em busca deles, mas tem dificuldade eles próprios de serem pais, como o caso de Dean que ao mesmo tempo, busca o próprio pai e não consegue, por não estar equipado para tal, assumir o papel de pai. Isso tematicamente é muito interessante.
  
  Por que você acha que tem uma busca nesse exato momento, nessa geração de 2012, pela geração Beat?
  
  Porque de alguma forma encontra uma sincronização com o tempo de hoje, é algo muito difícil de definir. Possivelmente pelo fato de que a gente precise novamente viver as coisas a flor da pele. Fomos demais na outra direção, sem experimentar como se desenvolve uma consciência critica do mundo. Essa é a minha intuição, pode ser que as razões sejam outras.
  
  Você pensa em transformar essa pesquisa feita para fazer o filme em um documentário?
  
  Sem dúvida. Quero que ele exista como uma peça independente do filme. É um documentário que parte em busca de um filme possível e como a gente pôde entrevistar muitas pessoas também é um depoimento sobre essa geração. Na época em que eu achava que o filme não ia existir eu fiz uma montagem para o festival de São Francisco de 1 hora, então a gente já tem uma base, mas são mais de 100 horas de entrevista com essas pessoas todas. Tem um material muito extenso.
  
  O que foi mudando ao longo desse processo de pesquisa foram as camadas de compreensão da história do livro, do contexto político daquela época, do impacto que eles foram ter anos depois, da influencia que aquele movimento acabou tendo. Muita gente me perguntava por que eu achava que acabou o movimento Beat, mas movimentos não acabam se transformam em outra coisa.
  
  Qual foi o momento que você decidiu e falou: “Eu vou fazer o filme”?
  
  A medida que você vai mergulhando num tema tão fascinante como esse você vai se apaixonando cada vez mais. Em 2010, por exemplo, eu estava plenamente satisfeito com o documentário e com o que eu tinha aprendido. Foi um processo muito inspirador que trazia camadas de informações que iam alimentando o roteiro, chegou uma hora em que alguém se apaixonou pelo roteiro e falou: “Esse filme tem que ser feito”. E foi feito com uma produtora da França que contou também com a parceria de uma série de produtoras independentes europeias. O filme foi feito sem um tustão norte americano.
  
  Como foi a escolha dos personagens do livro que foram incluídos no filme e outros excluídos?
  
  Infelizmente chega uma hora que você precisa decidir o que incluir e o que excluir. Eu particularmente adoro outros personagens do livro que não aparecem tanto no filme. Eu adoraria ter colocado todos no filme, mas infelizmente não é possível. Foi muito duro fazer o corte final, mas em algum momento é preciso editar.
  
  O filme se passa em diversos locais, o que precisou de várias mudanças de locação, talvez que talvez pudessem ser evitadas, para facilitar as filmagens. Você acha que essas mudanças fizeram alguma diferença no resultado final?
  
  No caso dessa busca por essa última fronteira norte americana que está no coração do On the Road, encontrar esse espaço geográfico ficou muito mais difícil devido a geografia norte americana, isso nos obrigou a ir mais longe. Daí a filmagem no Canadá que tem uma densidade populacional mais baixa. É importante ressaltar que a viagem desses personagens também não é só física, a transformação ocorre dentro deles. Os relatos de estrada são interessantes por que são relatos de transformação, partem sempre do pré suposto que os personagens não estão satisfeitos na sua pele e estão em busca de redefinição, sendo o movimento é o que faculta isso, é o que possibilita que isso aconteça.
  
  Confira abaixo algumas imagens da coletiva (veja todas na nossa galeria):
  
  
  

  
  Fotos e reportagem: Natália Soares Trotte
  
  Espero que tenham gostado da nossa matéria, fiquem de olho que talvez teremos mais participações da Natália por aqui!!! Em breve teremos também a crítica do filme. Pra ficar ligado em tudo siga o @CinefilaArte e Curta nossa Fanpage.
  

Um comentário:

  1. Muito curiosa para ver esse filme, mas não tenho altas expectativas após a fraca participação no festival de cannes.

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