sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Crítica da Semana -- Gonzaga, De Pai pra Filho


  
  O encontro de duas gerações
  
  Não é novidade pra ninguém que Luiz Gonzaga é um símbolo da música nordestina por todo o país, afinal não é à toa que ficou conhecido com o Reio do Baião. Também não precisaria de filme pra dizer que Gonzaguinha foi um dos grandes da música popular brasileira e um grande lutador pelos direitos do povo e dos menos favorecidos, principalmente durante o período de repressão no país. Todos os seus sucessos deles que estão vivos e tocando por todos os lados, mais de 20 anos depois da morte de ambos, já falam por si só.
  
  Mas o que está por trás do passado do homem que se tornou uma lenda da música nordestina? O que é necessário se abrir mão para se tornar um ícone da música? Como era essa relação de pai e filho que durante muitos anos foi conturbada e um dia melhorou?
  
  Estás são perguntas que o diretor Breno Silveira (ÀBeira do Caminho) e toda sua equipe foram buscar no passado e trazem para as telas do cinema, no filme que procura contar para o público um pouco do lado pessoal da vida desses dois grandes ídolos da nossa música, em Gonzaga, De Pai pra Filho.
  
  O filme se passa a partir da conturbada relação entre Gonzagão e Gonzaguinha, a relação entre eles era meio difícil no início e esse é o gancho, já que o primeiro contato do diretor com a história dos dois foi quando recebeu uma caixa contendo fitas onde Gonzaguinha entrevistava seu pai e nelas Luiz contou bastante da sua vida para seu filho. A partir daí acompanhamos também a jornada do pobre menino nascido na cidade de Exu no interior de Pernambuco, até se tornar o Rei do Baião. Tendo também o ponto de vista de Gonzaguinha que muitas vezes se sentiu abandonado pelo pai que estava sempre viajando fazendo shows e perdeu sua mãe muito cedo por causa da tuberculose.
  
  A história se passa através de tanto tempo que foram necessários 3 atores para interpretar Luiz Gonzaga e 3 para Gonzaguinha, um para cada fase da vida. A juventude do Gonzaga Pai foi vivida por Land Vieira que após fazer algumas novelas na TV Globo, faz sua estreia nos cinemas. Depois, dos 27 aos 50 anos, quem dá vida a Luiz Gonzaga é Chambinho do Acordeon que sai dos palcos, onde já possui um tempo de estrada como cantor, direto pra sua estreia no cinema. Sua experiência com a música de Gonzaga e com a sanfona garantiram uma ótima semelhança com o cantor e até o jeito de falar e se expressar ficou bem parecido. A última etapa da vida ficou por conta de Adélio Lima, ator na cidade de Caruaru, já interpretava o Rei do Baião no museu do barro, foi descoberto por acaso, acabou ganhando o papel, vive alguns dos momentos mais emocionantes da relação de Gonzaga com seu filho Gonzaguinha e representou muito bem o peso do papel que lhe foi dado.
  
  Quem vive esses momentos com Adélio, é Júlio Andrade - que já atuou também em algumas novelas da TV Globo, tendo destaque em Passione, onde viveu o mordomo da Maitê Proença (Primeiro Dia de umAno Qualquer) que foi bastante comentado – que ficou idêntico ao Gonzaguinha, a semelhança não só física, como também na forma de falar e agir é impressionante, um ótimo trabalho. Na outras fazes de Gonzaguinha temos Giancarlo Di Tommaso (também estreando com ator) durante sua juventude e Alison Santos que vive a difícil infância de Gonzaguinha. Uma marca do filme é que a maioria dos atores fazem suas estréias no cinema e isso mostra que nem sempre é preciso um elenco de peso para fazer um bom trabalho.
  
  A trilha sonora é excelente, como não podia deixar de ser em um filme que fala de dois grandes nomes da nossa música. A escolha de cada uma foi muito bem feita e foram todas utilizadas no momento certo. Através delas podemos ver como pai e filho realmente viveram suas músicas e elas eram influenciadas diretamente pelos momentos de suas vidas.
  
  A partir disso, é só se deixar levar, pois a música conduz a história que no final vemos que é muito mais cantada do que contada. E acompanhar uma história gostosa de assistir, cheia de saudades e emoções, que consegue ser tão envolvente quanto a música de seus personagens centrais. Um filme para eternizar ainda mais a memória de duas lendas da música popular brasileira.
  
  Feito com Efeito: Seguindo a regra de filmes nacionais, esse também praticamente não utiliza efeitos visuais, pelo menos nenhum que salte à vista. Uma coisa que gostei bastante foram as inserções de vídeos e fotos de arquivos de imagens que mostram alguns momentos dos dois artistas. Além de ser uma forma de inserir no filme uma recordação real deles, também mostra alguns acontecimentos do filme na realidade e ressalta a proximidade dos atores com os artistas.
  
: O filme é um deleite pra quem gosta de boa música e bom cinema, uma bela forma de contar a história de duas pessoas que ficaram na história da música no Brasil e agora ganharam uma merecida homenagem no cinema. E Breno Silveira continua mostrando seu talento para extrair o melhor de cada história e retratar de forma emocionante a vida de grandes ídolos.
  
  Uma coisa que me chamou muito atenção também foi o trabalho da equipe de maquiagem, achei excelente!!! Ajudou bastante na caracterização dos atores pra ficarem parecidos com as pessoas que representavam, principalmente o Luiz Gonzaga. A maquiagem deixou o Chambinho, mais próximo do artista e, além disso, quando ele vai envelhecendo, tiveram a sacada de deixar ele mais parecido com o Adélio que faz a próxima faze da vida do Gonzaga.  Sem falar na cicatriz que Gonzagão ganha no acidente de carro, que ficou muito bem feita nos dois atores.
  
  E como não falar do Júlio, ficar igual é pouco, ele encarnou o Gonzaguinha. Tem cenas que chega a dar nervoso, a forma como ele lembra o cantor. Um belo trabalho que com certeza irá lhe abrir muitas portas no cinema e com certeza vai conseguir emocionar muita gente. Principalmente na cena em que ele chama o pai ao palco, na representação do primeiro show que pai e filho fizeram juntos.
  
  Porém, apesar de tantas qualidades (aliás, gostaria de desejar boa sorte pro meu amigo marretão pra falar desse filme), meu destaque principal de hoje fica pra uma parte técnica do filme. A trilha sonora é algo que dá vida e alma à história. Talvez, essa característica seja muito ressaltada por ser sobre a vida de dois grandes músicos, mas da mesma forma que isso ajuda por um lado, poderia ser uma tragédia se as músicas fossem mal selecionadas ou mal utilizadas. Felizmente isso não acontece e música guia cada passo da história, assim como guiou os caminhos de Gonzaga e seu filho.
  
  Certamente fará muita gente sair do cinema com vontade de ouvir as músicas deles e nos lembra como é vasta a cultura musical no Brasil. Prevejo um monte de downloads de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha na internet nas próximas semanas. =)
  
Ed: E eu que tava achando que quando o Festival do Rio acabasse minha vida ia ficar mais fácil por aqui... Assim vou começar a cobrar adicional de hora extra, ou insalubridade sei lá... porque ter que ainda ficar ouvindo piadinha do Mr. Estatueta aí em cima é tenso!!!
  
  A história se passa durante um tempo bem longo, então tem alguns atores que são menos aproveitados, pois o tempo passa e outros precisam a substituí-los, ou alguns até mesmo somem, como é o caso da Cecília Dassi (A Guerra dos Rocha) que aparece nas primeiras cenas, como um amor de infância do Gonzaga, depois some. A personagem até é mencionada novamente, mas a atriz faz só as primeiras cenas.
  
  Pra fechar minha participação, deixo uma reflexão. Dos 4 últimos filmes de Breno Silveira, 3 tiveram grande projeção e todos de alguma forma ligados a grandes nomes da música - a dupla sertaneja, o Rei e agora o Rei do Baião. A única exceção foi Era uma Vez, que não teve tanta projeção. Será que o diretor só se da bem em filmes com temas musicais, gostaria de ver tentar sair da zona de conforto mais uma vez... Só comentando...
  
  

Um comentário:

  1. Excelente! Conversei com algumas pessoas e fatalmente a bilheteria irá lucrar mais de uma vez com o mesmo expectador! Belíssimo filme!

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