sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Crítica da Semana -- Uma História de Amor e Fúria (Especial FestRio)

  
  Uma história sobre passado e futuro
  
  O Festival do Rio já está na sua semana de repescagem (que na verdade acaba hoje) e por aqui continuamos as críticas dos filmes que fizeram sua estreia na Première Brasil. Hoje falaremos da única animação que esteve entre os concorrentes da mostra competitiva desse ano e que trás para a telona uma animação em estilo clássico - onde os personagens foram desenhados e animados com lápis e papel -, bem brasileira e com uma temática adulta que lembra clássicos como Akira e os quadrinhos Os 300 de Esparta de Frank Miller. Essa ideia arrojada e diferente abre novos horizontes para a animação no cinema brasileiro e tem estreia prevista no circuito nacional para o início do ano que vem. Esse é Uma História de Amor e Fúria, nossa crítica de hoje.
  
  O filme me chamou atenção logo de cara, por ser feito em animação tradicional, na era em que tudo é 3D e computadorizado a iniciativa de criar um projeto assim, já é interessante por si só, ainda mais quando se busca atingir o público adulto, já que a animação não é nada voltada para crianças, tratando de temas como, guerras, lutas sangrentas e sexualidade. Os méritos do filme ficam ainda maiores quando tem o foco de sua história em nossas raízes, no passado do povo brasileiro e que tem como diretriz de sua proposta uma ideia que é apresentada na fala do protagonista logo no início: Viver sem conhecer o passado, é viver no escuro.
  
  Falando em falas (ficou estranho isso!) dos personagens, 3 grandes astros do cinema nacional emprestam suas vozes para os personagens principais do desenho. Selton Mello (O Palhaço), Rodrigo Santoro (Heleno) e Camila Pitanga (Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios) foram os responsáveis não só pela dublagem, mas também pela atuação, já que eles gravaram as vozes como se estivessem encenando e depois a equipe de arte criou os desenhos e as cenas animadas, se baseando nas atuações que os atores criaram. Nas palavras do próprio diretor e escritor do longa Luiz Bolognesi (As Melhores Coisas do Mundo): “Eles foram não só a voz, mas a alma dos personagens”.
  
  Na história, um índio nativo do Brasil recebe uma missão espiritual do pajé da tribo e vai viver por 600 anos buscando, durante várias épocas diferentes, o grande amor da sua vida, Janaína. E juntos eles estão predestinados a lutarem sempre em favor dos menos favorecidos e assim vão nos levando por uma viagem através de grandes batalhas da história do nosso país. Como o herói mesmo diz: “Meus heróis nunca viraram estátua, morreram lutando contra quem virou”.
  
  A estética do filme é muito bonita de uma forma geral, seja na animação e desenhos de grande qualidade, que não devem nada aos internacionais, ou pela história que é muito bem escrita, buscando não só nossas origens, mas também fazendo um alerta sobre o futuro, ou ainda pela trilha sonora gostosa, envolvente e brasileiríssima, o filme tem tudo para se tornar uma produção de muito sucesso e uma referencia para animação no Brasil.
  
  Feito com Efeito: Nesse caso, o trabalho de efeitos visuais, fica mais por conta dos desenhistas e ilustradores que criaram todo o visual do filme, já que se trata de técnicas de animações tradicionais, como já foi dito. E apesar de sempre ter um retoque ou outro em na computação gráfica, o trabalho se torna mais manual no final das contas.
  
  De qualquer forma, vale ressaltar os belos cenários que foram criados para o filme, o ambiente das batalhas e lutas travadas, foi muito bem estudado e proporcionam ótimas cenas. Além disso, o visual futurístico da cidade do Rio de Janeiro imaginada no ano de 2096 é excelente!!! Não vou entrar em muitos detalhes para não estragar as surpresas, mas prestem atenção nos detalhes, tanto visuais quanto nos que são explicados pelo texto, porque tem coisas muito boas e muito bem sacadas.
  
  Pra fechar essa sessão de hoje, tem até um momento em que utilizam a famosa cena do “Bullet Time”, onde a câmera acompanha a bala disparada em câmera lenta, até ela atingir o alvo, que ficou ótima!!! Geralmente é uma técnica muita usada em CG, mas achei que ficou bem legal desenhada também.
  
  Enfim, um ótimo trabalho e que acho que serve de inspiração para todos que trabalham de alguma forma nessa área, para mostrar que também podem ser feitos filmes desse estilo no Brasil e que o mercado de computação gráfica e ilustração pode sim ser grande no país. Se exportamos mão de obra, porque não exportar obras de qualidade?
  
: Gosto quando o cinema nacional sai um pouco da mesmice e resolve inovar, esse tipo de produção está ganhando cada vez mais espaço no cinema nacional e acho que têm que ser reconhecidas, palmas para o pessoal do FestRio pela escolha da produção para a Première Brasil!
  
  O Luiz faz sua estreia na direção de um longa e faz uma bela estreia, não só pela qualidade do trabalho, mas também pela ousadia do projeto, mostrando que o cinema nacional pode também produzir animações de muita qualidade e buscando atingir um nicho que até mesmo as grandes produtoras internacionais se arriscam pouco, a própria Pixar demorou anos pra fazer sua primeira animação voltada para o público adulto, que só aconteceu com Wall-E.
  
  Por isso, apesar dos desenhos e a animação estarem em ótima qualidade, como o chefe falou aqui em cima (se não leram, leiam!!!) (Ed: Puxa saco ¬¬ / Zé: Quer aguardar a sua vez de falar, por favor, mão de chumbo!!!), Continuando... Meu destaque de hoje vai pra direção, não só pela ousadia e inovação, como também pela ideia do tema baseado em momentos históricos, visto por um ângulo que poucos conhecem, ou se quer pensaram a respeito. Pra quem não viu no Festival, aconselho fortemente assistir quando entrar no circuito!!!
  
Ed: Até que enfim tá acabando esse negócio de Festival do Rio, não aguento mais fazer hora extra tentando fazer meu trabalho com esses filmes. O de hoje é outra pedreira... Nesse apelaram né?!? Rodrigo Santoro, Camila Pitanga e Selton Mello... os caras geralmente me arrumam problema separados... juntos e em uma animação, fica complicado!!!
  
  O que posso falar aqui hoje é que a história do filme é bastante nacionalista, por isso surte um efeito mais positivo pra quem conhece a historia ou pelo menos vive o presente do país e isso pode dificultar um pouco a exportação da produção, talvez não funcione bem lá fora, pra quem não conhece o que acontece por aqui. Alguns detalhes, trocadilhos e piadas podem se perder e deixar a história, pouco interessante.
  
  É isso, vou ficando por aqui, porque sexta feira, ainda mais com esse tempinho mais ou menos, dá uma preguiça... (Zé: *Disfarçada detect* hauhauahuah)
  
  Ficha técnica do filme
  

2 comentários:

  1. Não sei se posso concordar muito com a sua crítica...

    De fato, a idéia do filme (leia-se: a idéia da história) é realmente muito interessante.
    E você tem razão, o filme é muito bonito.

    Mas, sinceramente, com imagens bonitas fazem-se álbuns de fotos e não filmes. Não que filmes não devam ser bonitos, mas eles precisam de muito mais.

    "desenhos de grande qualidade (...) não devem nada aos internacionais" - Permita-me discordar diametralmente da sua afirmação... os desenhos e a animação parecem ter sido feitos em Flash; as bocas dos personagens moviam mal e porcamente quando eles falavam, e o diretor de animação parece que se esqueceu (ou assim quero crer) de que cinema faz-se com 24 quadros por segundo. É claramente notável que o mesmo take do pássaro voando "através dos tempos" foi usado múltiplas vezes e a entonação dos atores não está nada convincente - sente-se assistindo um animê de baixíssima qualidade, desses que são feitos com pouco cuidado, em escala industrial, para a televisão (quase um hentai). No momento em que, no começo, Janaína leva um lero sensual com o protagonista e lhe lambe o queixo, a reação da platéia à minha volta foi de deboche da atuação tosca e risos do movimento da língua (que mais parecia um traqueamento de objeto feito no After Effects).

    Depois da seqüência inicial a la Avatar (ou, melhor, a la Pocahontas), lá pela metade do filme, ele se torna insuportavelmente previsível, e o pouco que a beleza dos cenários acrescenta já não supre a revolta que se instala no público com a ausência de surpresas, ou, pelo menos, de um diálogo bom. Talvez, se o filme fosse voltado para crianças, o seu público-alvo não se incomodaria com esses problemas. Talvez, se o roteirista não nos tratasse por burros, as suas máximas de efeito e seu narrador em voz-off não soariam piegas e desnecessários.

    Como o Zé falou muito bem, é ótimo quando o cinema brasileiro sai da sua mesmice. Mas é melhor ainda quando ele é bem realizado.
    Aparentemente, tudo isso que critico no filme é intencional, faz parte da estética do filme, da visão do diretor. No que me compete, e no que compete às dezenas de pessoas que se retiraram da sala enojadas na pré-estréia do filme assim que ele acabou, esta chama-se a "estética da preguiça". Preguiça de fazer uma animação e um roteiro competente, mesmo tendo cinco anos de produção para tanto.

    Desculpe se sou meio antipático neste comentário, mas é este o sentimento que tenho quando lembro de "Uma História de Amor e Fúria".

    ResponderExcluir
  2. Primeiramente obrigado pelo comentário, concordando ou não é sempre ótimo contar com a participação dos leitores, afinal essa é a ideia do CA, trocarmos ideias e opiniões sobre cinema!

    Realmente gostei da qualidade dos desenhos, acho sim que tenha sido opção estética e não preguiça, até porque ninguém faz um filme que leva 5 anos com preguiça. O estilo do desenho tem uma estética rústica que lembra traços de desenhos antigos e não só acho que foi por opção, como acho que foi uma BOA opção, por ser um filme que fala sobre acontecimentos históricos. Não sei se vc chegou a ver, mas lembra o estilo do longa de animação japonês, Akira.

    Previsível até é um pouco, porém a história trabalha com um conceito cíclico o tempo todo, então a previsibilidade é esperada, pois está dentro do contexto da abordagem utilizada e o que a história busca não é a surpresa, e sim, o conhecimento do passado e uma reflexão sobre o futuro.

    Também, vale lembrar que é um dos primeiros longas produzidos no Brasil com esse estilo que chega como uma grande produção e com atores de peso no elenco. Por isso disse que não deve nada aos estrangeiros, claro que tem coisa pra acertar ainda, mas estamos começando e eles já fazem isso há muito tempo.

    Então, acho que para um primeiro passou começaram bem e acho que algumas falhas não propositais podem ter acontecido, mas são perfeitamente compreensíveis e pra mim, surtiu efeito justamente contrário ao seu. O conjunto da obra com belas cenas e um história pensada com um propósito claro e inteligente de mostrar a história do país de uma forma diferente, acaba fazendo esses pequenos problemas e desacertos passarem batidos durante a sessão, até mesmo o fato de às vezes tentar ser didático demais.

    Eu vi dessa forma... mas achei legal seu comentário e acho que esse é um filme que vai realmente dividir opiniões quando for lançado, mas espero que agrade mais do que desagrade, para surgirem mais produções do tipo. =)

    ResponderExcluir

Comentem aí, suas opiniões são bem vindas e fazem o CA bem mais divertido, mas mantenham o bom senso ok? Perguntas serão respondidas sempre que possível...