terça-feira, 1 de outubro de 2013

Crítica da Semana -- O Tempo e o Vento

  
  Estamos em época de Festival do Rio, por isso essa semana a Crítica da Semana está indo pro ar mais cedo, geralmente ela chega no final da semana, mas como ainda teremos muito o que comentar do Festival, adiantei a crítica para hoje. Quem ainda não viu o início de nossa cobertura no FestRio, dá uma olhada aqui!

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  Uma história de amores em tempo de guerras
  
  O cinema nacional, vem passando por uma safra de seguidas comédias, muitas delas em um nível pastelão demais, que são cada vez menos bem recebidas pelo público. Não que eu tenha alguma coisa contra comédias, longe disso, mas acho que o cinema brasileiro precisa se permitir, criar algo maior, ousar, ir além, porque ninguém alcança grande destaque de forma internacional no cinema, fazendo apenas humor nível Zorra Total.
  
  Então temos que valorizar as produções que procuram esse algo mais, fazer algo maior, ainda que com mais investimentos e consequentemente com mais riscos. O diretor Jayme Monjardim (Olga) tem fama de gostar de produções épicas e grandiosas. Então quem melhor para trazer para os cinemas a adaptação de um a obra literária de Erico Veríssimo? Jayme aceitou o desafio e com isso surgiu O Tempo e o Vento, baseado na obra de mesmo nome do autor - mais precisamente na primeira parte dela: O Continente. Obra que já teve uma adaptação para a tv brasileira em 1985, em formato de mini-série, e que chega agora aos cinemas e também à nossa Crítica da Semana.
  
  O centro da história, se encontra em Bibiana, matriarca da família Terra-Cambará, tradicional família do sul do país que protagonizou uma das grandes guerras brasileiras contra seus rivais da família Amaral, na tradicional cidade de Santa Fé, no Rio Grande do sul. A personagem, que é vivida pela eterna Fernanda Montenegro (Casa de Areia) em mais uma grande atuação. Relembra a história de sua família, desde seu avô que foi um descendente de indígenas criado nas missões e com isso viajamos com ela, em quase 100 anos de história da formação do sul do país e as violentas guerras que aconteceram naquela região.
  
  Porém o foco não são as batalhas, nem os enormes conflitos armados que aconteceram durante esse período – que na verdade ficam bastante em segundo plano. A história tem a perspectiva do lado feminino da guerra, as mulheres que viveram aquele período e o que elas sofreram com tudo que estava acontecendo, assim como sua força para manter a família, os filhos e a terra. Sentimento que é bem definido por um texto de Bibiana que diz que segundo sua avó, a sina das mulheres da família é chorar e esperar.
  
  Além de Fernanda Montenegro, o elenco conta com muitos grandes nomes da tv e do cinema brasileiro. Tantos que não vou citar para não me estender demais. Porém duas outras atrizes bem conhecidas do público têm papel de destaque. Marjorie Estiano (Malu de Bicicleta) que vive a juventude de Bibiana, com sua habitual sutileza para atuar, e o início de seu amor pelo Capitão Rodrigo, o grande amor de sua vida. O capitão é interpretado por Thiago Lacerda (Segurança Nacional) que apresenta um personagem divertido e interessante, que passa bem pelos diferentes momentos da vida do Capitão “aposentado”.  A outra é Cléo Pires que interpreta Ana Terra, avó de Bibiana, que foi a primeira da família a chegar à Santa Fé. Cléo interpreta o mesmo papel vivido por sua mãe na mini-série e desempenha um papel forte e de presença, mostrando os dois lados da mulher daquela época, tão bela quanto forte.
  
  As paisagens do interior do sul do país não podem faltar em uma história como essa, assim a fotografia é parte importante do filme, mostrando as belezas naturais assim como dos locais e antigas construções, muitas delas de pé até hoje, com muitos anos de história. Parte da cenografia também foi recriada em uma locação em Bagé – RS, onde foi construída uma cidade cenográfica para a produção.
  
  Os elementos cênicos também são um trunfo bem explorado pelo diretor, são eles que muitas vezes fazem as conexões através dos tempos e que demostram as ligações entre os personagens, mostrando que o tempo passa, mas certas tradições ficam, através da família. Muito detalhes podem ser notados, mas 3 em especiais são explorados constantemente a tesoura usada para cortar os cordões umbilicais dos recém nascidos, a antiga roca da bisavó de Bibiana e os crucifixos.
  
  Um filme com grandes proporções históricas, com um grande custo de produção e que nas telas apresenta um resultado satisfatório, um bom exemplo de como o cinema brasileiro pode sim sair da zona de conforto e investir em produções de grande porte, afinal história pra contar o país tem de sobra. O que falta é acreditarem no potencial do nosso cinema de fazer mais do que comédias televisivas. O Tempo e o Vento tem seus defeitos e pontos baixos certamente, mas ganha pela intenção de ser épico e pela força da história que conta. Uma produção que certamente vale a pena ser prestigiada.
  
  Feito com efeito: Hoje vamos ter uma seção curta nessa parte da crítica, o filme não utiliza computação gráfica em quase nada, a produção confirmou essa informação na entrevista dada no Rio de janeiro, e nem precisava porque pelas cenas do filme dá pra notar. Segundo informaram foi uma intenção proposital para manter o ar de época do filme. Eu ainda acho que podia ter algum investimentos em efeitos visuais para algumas cenas, mas opção é de cada um.
  
  Uma informação técnica interessante é que esse foi o primeiro filme no mundo completamente filmado e finalizado em 4k, a tecnologia mais moderna em termos de realismo e qualidade de imagem. Outras produções já foram filmadas com essa tecnologia, mas não foram finalizadas no mesmo formato, o que foi feito pela primeira em O tempo e o Vento. Ponto para o Brasil!!
  
: É bom ver o cinema brasileiro buscando novos horizontes, às vezes vejo tantas coisas que não vão à lugar nenhum que chego a desanimar, mas pelo menos ainda tem gente tentando fazer alguma coisa diferente.
  
  Já na primeira cena, o plano chama atenção com um cavaleiro que anda ao por do sol, uma tomada que referencia os antigos westerns norte americanos, mostrando que toda a história se direciona para um sentido clássico, sentimento que se confirma no decorrer do filme.
  
  Méritos indiscutíveis para o diretor por ter conseguido realizar um projeto diferenciado e que valoriza além do cinema nacional, a história do país. E entrega um bom resultado no final das contas. Temos que destacar também os sempre tão criticados nos filmes nacionais, produtores do filme, que compraram a ideia e toparam fazer um filme com ares grandiosos, ainda que pra isso necessite um pouco mais de investimento e todo mundo sabe que o risco com um filme desses é bem alto, mas é necessário acreditar na capacidade do público brasileiro de consumir esse tipo de filme, pois o cinema do país anda carente de grandes e belas produção.
  
  Porém meu destaque maior do dia, vai pra fotografia realizada por Affonso Beato, que já foi responsável pela fotografia de grandes produções, inclusive fora do país como O Amor em Tempos de Cólera e A Rainha e que faz um belo trabalhos com as paisagens do pampa gaúcho e se utiliza muito bem da iluminação nos ambientes internos para valorizar cada traço da cena. Certamente a fotografia é um diferencial que dá um levante nas cenas, ainda mais filmadas em 4K.
  
Ed: Tá tudo muito bom, mas no final das contas ainda é filme brasileiro né? Então, sempre tem umas coisas pra facilitar minha vida (ainda bem!).
  
  Uma das primeiras coisas que se vê logo de cara, ainda mais pra quem leu o livro, é que tem muita história pra contar em pouco tempo de filme, então muitas sequencias ficam corridas e com muitas passagens de tempo. O que depois de algum tempo de projeção fica cansativo. Aliás  a quantidade de passagens no fade é enorme, eu já tava cronometrando o tempo entre um e outro, já dava pra saber até onde ia entrar o próximo!!!
  

  Um outro detalhe que poucos devem ter notado é que a história trouxe um vício da tv pro cinema (talvez por conta dos trabalhos do diretor). A história é praticamente dividida em núcleos, como é feito em uma novela, cada grupo de personagens pertence ao seu núcleo específico da história e um ou dois outros fazem a ligação desses núcleos. Uma técnica muito usada nas novelas da tv, mas pro cinema gera um interação meio incomoda. 
  
    
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