terça-feira, 8 de outubro de 2013

Crítica Especial FestRio -- Cidade de Deus 10 Anos Depois

  
  O tempo passa para todos
  
  O filme Cidade de Deus foi um sucesso estrondoso de público e de crítica no mundo todo, tendo sido traduzido em mais de 10 idiomas diferentes e esteve até no Oscar, sendo que foi um filme feito com boa parte do elenco de dentro da própria comunidade, uma iniciativa do diretor Fernando Meirelles (360) que abriu as portas das comunidades menos favorecidas do Rio de janeiro para o mundo do cinema, dando origem a várias iniciativas e projetos ligados a isso, assim como possibilitou o inicio da carreira de muitos jovens dessas comunidades.
  
  Ainda assim, o filme tinha um elenco bem grande e obviamente apesar dos muitos casos de sucesso nem tudo são flores para todo mundo, o mercado cinematográfico é muito competitivo e às vezes exige mais do que se espera, ainda mais se você não foi preparado para isso, de certa forma, foi colocado no meio disso tudo e já de cara com uma produção dessa magnitude.
  
  Algumas histórias de sucesso nós conhecemos bem, como Seu Jorge (E Aí...Comeu?), Alice Braga (Elysium), Darlan Cunha (Meu Tio Matou um Cara), Roberta Rodrigues (Desenrola), Jonathan Haagensen (Noel – Poeta da Vila), Douglas Silva (Ensaio Sobre a Cegueira), Thiago Martins (A Menina da Flor), Leandro Firmino (Totalmente Inocentes) entre outros. Porém o elenco tinha muito mais que alguns personagens o que terá acontecido com todos eles e mesmo esses que estão mais estabilizados será que foi fácil assim? Essas perguntas e muitos mais sobre esses 10 anos que se passaram do lançamento do longa estão no documentário Cidade de Deus 10 Anos Depois que é mais uma crítica especial do Festival do Rio desse ano.
  
  O filme procura resgatar através dos depoimentos o que representou na vida de alguns dos integrantes do elenco trabalhar no filme e mostra  muitas variações interessantes. Como alguns souberam lidar bem com a oportunidade e aproveitar o embalo do sucesso do filme para iniciar uma carreira promissora, enquanto outros acabaram não sabendo ou não estavam preparados para ele e por isso acabaram indo por caminhos errados.
  
  Mostra de uma forma interessantes os dois lados de fazer parte de uma grande produção como essa. A parceria na direção entre Cavi Borges (dirigiu uma série de curtas de sucesso como A distração de Ivan e Em Trânsito) que além de cineasta é dono da produtora Cavídeo e Luciano Vidigal (5x Pacificação) - que participou do filme Cidade de Deus como responsável por encontrar os participantes do elenco entre os candidatos da comunidade, o que fez com que tivesse um contato bem próximo com esses jovens e crianças que estiveram no filme, apresenta uma estética bem moderna e envolvente, com uma dinâmica de montagem que dá ritmo a história.
  
  Ao mesmo tempo, cenas do filme são relembradas enquanto são traçados comparativos entre os personagens da ficção e os reais de forma que nos faz perceber que muitas vezes a vida imita a arte. Além de desmistificar algumas coisas por trás das grandes produções, principalmente quanto ao valor dos caches que muitos imaginam ser astronômicos só porque o filme fez sucesso.
  
  Através da boa escolha de imagens, uma edição dinâmica e uma narrativa bem estruturada, mostra entre muitas outras coisas o choque cultural de em um momento ser um morador de uma comunidade desconhecido e no outro ter sido parte de uma das grandes produções do cinema brasileiro e no caso de alguns terem ido inclusive ao Oscar.
  
  Embalado por uma trilha sonora bem brasileira levanta questões e mostra algumas das contraposições que podem fazer parte de uma produção cinematográfica. Apesar de ser um documentário sobre um assunto bem específico, pois coloca no foco o que aconteceu com cada um dos atores e levanta uma questão social, porém que é pouco discutida.
  
  Talvez um pouco mais de profundidade sobre as questões sociais e as dificuldades para se lidar com essa situação profissional pós filme que fica entre o quase sucesso e voltar a ser desconhecido, poderia elevar o documentário a outro patamar, mas ainda assim é uma boa história a ser acompanhada, que coloca novamente nos holofotes essa produção que foi um grande sucesso e marcou seu lugar na história do cinema nacional.
  
  Feito com Efeito: Apesar de ser um documentário, que muitas vezes é um tipo de filme que não se utiliza muito de artifícios visuais, como foi mencionado a cima, o filme tem uma dinâmica bem moderna, inclusive visualmente falando. Não só na escolha de cena e no modo de montagem, em alguns momentos também se utiliza de alguns grafismos bem interessantes para dar cor e movimento ao filme.
  
  Gostei bastante da forma como foi escolhido mostrar alguns dos trabalhos importantes realizados pelos artistas mais conhecidos que já estiveram em outras produções. As animações ficaram com um visual interessante que lembra os tão famosos grafites presentes em muitos lugares atualmente e que é uma arte que veio da periferia, assim como Cidade de Deus. A arte completa muito bem a ideia que está sendo apresentada e diálogo com o contexto, sendo assim uma ótima escolha. Afinal, quem disse que documentário precisa ser visualmente apagado? Sempre é possível trabalhar um pouco o visual, sem fugir do contexto trabalhado.
  
: Indiscutivelmente Cidade de Deus é um dos grandes sucessos do cinema brasileiro, abriu muitas portas para o cinema do Brasil no exterior, lançou o Fernando no mercado interacional onde hoje é mundialmente famoso e abriu espaço pra muita gente boa. Esteve na premiação da Academia com holofotes, tapete vermelho e tudo que tem direito, infelizmente não chegou a entrar pra família diretamente, mas só de ser o único filme brasileiro indicado em 4 categorias por lá já é uma honra e tanto. Pessoalmente, acho que merecia pelo menos um. Vai entender esse povo da Academia, se eu ainda estivesse por lá certamente tinha dado um jeitinho...
  
  Enfim, são águas de baixo da ponte... o sucesso do filme foi independente de ganhar ou não aqueles prêmios. Além disso, hoje estou aqui pra falar de outro filme. O documentário resgata muitos momentos e mostra um lado esquecido muitas vezes no cinema, o lado daqueles que recebem menos atenção da mídia, mesmo com o grande sucesso do filme, existe o lado negativo, afinal sempre existe outro lado.
  
  Admiro a coragem dos idealizadores que resolveram mostrar de forma bem direta esse outro lado, que nem sempre é o que as pessoas querem ver, mais isso não faz com que ele não exista. Além disso, um documentário sobre um filme, e quase uma homenagem e muitas vezes não é bem recebido, ao contrário desse caso que pelo bom trabalho realizado, agrada por não ser apenas mais uma forma de bajulação e demagogia a cerca de algo que fez sucesso e sim ter intenção de demonstrar um lado da “fama” pouco lembrado.
  
  Por isso meu destaque de hoje fica de uma forma geral para todos que acreditaram na realização do trabalho. Mas em especial para seus idealizadores, Cavi e Luciano.
  
Ed: Pra mim parece uma forma de curiosidade do dia. Me lembra aquele antigo quadro da televisão “Por onde anda”. Para mostrar ao público em que situação se encontra alguns dos integrantes do elenco. Claramente existe uma questão social em tudo isso, porém da mesma forma fica claro que não é o interesse da produção discutir o assunto. É algo tipo: “O problema existe, tá vendo? Mas falamos sobre isso depois”.
  
  Também senti falta de algumas pessoas no documentário que não posso deixar de comentar, ator Matheus Nachtergaele (A Febre do Rato) não foi nem citado,apenas aparece brevemente em uma cena recuperada do filme.
  
  O Meirelles também é uma ausência significativa entre os depoimentos, afinal é quem comandou o filme e de certa forma também teve sua vida e carreira muito influenciada pelo filme, afinal foi o trabalho que abriu espaço para ele fora do país e, diga-se de passagem, sua única indicação ao Oscar. Acredito que tenha tido um bom motivo pra ele não estar entre os entrevistados, mas não creio que nenhum seja bom o suficiente para justificar sua ausência. Depois de citar a ausência do Fernando, a dele nem é de se espantar, mas Bráulio Mantovani (Tropa de Elite) que foi quem adaptou a obra para os cinemas, nem é citado na produção.
  
  São algumas questões que fazem com que a obra perca um pouco de força e fazem com que seja mais um filme de contemplação do que de reflexão. Deixando alguns questionamentos inconclusivos, abrindo mão de aprofundar alguns assuntos.
  

  
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