quinta-feira, 20 de março de 2014

Crítica da Semana -- Alemão


  No interior da ocupação do Complexo
  
  Filmes falando sobre as tão famosas comunidades brasileiras (principalmente no Rio de janeiro) não faltam no cenário cinematográfico nacional, sendo que dois ganharam proporções mundiais. É claro que todo mundo que acompanha um pouco de cinema sabe que estou falando dos grandes sucessos de bilheteria, Tropa de elite e  Cidade de Deus. Apesar do sucesso e da projeção que ganharam esses não foram os primeiros filmes que usaram essas comunidades como cenário e certamente não vão ser os últimos. As favelas são algo presente no dia a dia de quase todos os estados do Brasil e por isso, assuntos sobre o tema não vão faltar.
  
  Agora chega aos cinemas um novo produto nessa linha, Alemão trás para as telas do cinema um dos maiores complexos de favelas do Rio de janeiro, O Complexo do alemão. Formado por várias comunidades o Complexo hoje chega a incrível marca de quase 70.000 habitantes e era considerado uma das áreas mais violentas e perigosas do Rio de janeiro, até recentemente quando foi ocupado pelo governo para a implantação da Unidade de polícia pacificadora (UPP).

  É sobre esse momento que o estreante roteirista Gabriel Martins debruçou os olhos e utilizou se utilizou da ocupação para criar uma história ficcional, porém apoiada em fatos jornalísticos e histórias apuradas, fato reforçado pelo diretor José Eduardo Belmonte (Billi Pig) com a utilização de imagens reais em alguns momentos da história, sobre um grupo de policias que à época da invasão do Complexo, estavam lá dentro infiltrados como moradores para colher informações para a polícia.
  
  Dessa ótica, o filme não é focado na invasão e retomada do local em si, confesso que quando li sobre o filme, pensei que esse seria o foco, mostrar como aconteceu essa tomada. Porém se trata muito mais de uma história sobre conflitos e relacionamentos, onde esses homens que estão lá dentro vêem suas vidas ameaçadas; e com a invasão eminente e poucos conhecendo sua real condição de policial, precisam tentar sobreviver a qualquer custo, para voltarem às suas vidas. A opção foi por uma abordagem, muito menos pautada na violência que acontece nesses locais e mais nesses conflitos que geram uma operação dessa magnitude.
  
  O grupo é formado pelos policiais Samuel, Danilo, Carlinhos e Branco, que são encenados pelos atores Caio Blat (Entre Nós), Gabriel Braga Nunes (O Homem do Futuro), Marcello Melo Jr. (fazendo sua estreia nos cinemas) e Milhem Cortaz (O Lobo atrás da Porta). Que recebem a ajuda do dono de uma “birosca” da comunidade Doca, vivido por Otávio Muller (Minutos Atrás). Esses homens estavam na favela a serviço da polícia, algo que bandido nenhum perdoa e depois de uma reviravolta na missão eles vão passar a ter somente um objetivo, sair de lá com vida.
  
  A história trata essencialmente de conflitos, sejam eles internos da polícia, interpessoais, de classe social, morais e até amorosos. Um dos maiores vemos no departamento policial, onde mandar o resgate para os homens que estão na favela, significa expor uma missão clandestina da policia... então o que fazer, deixá-los lá, a própria sorte, para manter a integridade (?!?) do departamento de polícia? 
  
  Toda a trama é pontuada por uma tensão constante e um ritmo frenético. As sequencias de câmera acompanham esse ritmo, fazendo uso constante de imagens tremidas e sem foco, o que é atenuado pelo ambiente escuro e claustrofóbico de algumas cenas, criando um estilo bem próprio de filmagem. Após uma breve explicação inicial sobre o local e sobre a eminente tomada do complexo pela policia, a história já se inicia no meio do fogo cruzado (sim, foi um trocadilho).
  
  Ao contrário dos primos já famosos, a intenção não é falar sobre o complexo e a invasão em si. Enquanto em Tropa de Elite vemos o dia a dia do BOPE e em Cidade de Deus o mesmo sobre a favela que dá nome ao filme e seus moradores, em Alemão as pessoas envolvidas na trama, seus problemas pessoas e sentimentos que afloram com toda a tensão daquela situação, são muito mais importantes que a favela em si.
  
  Para dar um quebra nesse ritmo em 220v (que ninguém aguenta o tempo todo), as próprias situações extremas a que os personagens são expostos geram situações engraçadas e inesperadas que dão um toque de humor e que serve como alguns momentos de respiro na trama, até mesmo durante sequencias de tensão.
  
  Cauã Reymond (Reis e Ratos) como o dono do morro Playboy e Antônio Fagundes (A Mulher do meu Amigo) como o Delegado de polícia Valadares, completam o elenco principal dessa história onde ninguém é inocente e todo mundo tem algo pelo que lutar. Onde vemos que os dois mundos, da polícia e dos bandidos não são tão distantes quanto se poderia imaginar e muitas vezes acabam se misturando, mas no fundo, são todos pais, mães, irmãos, maridos, namorados... e cada um do seu próprio jeito (certo ou errado), procura sobreviver cada dia nessa guerra diária que é viver em uma favela.
  
Feito com Efeito: Nenhum efeito muito extravagante como é o normal em filmes nacionais, uma explosão aqui e outro retoque ali, mas nada que mereça um destaque no que diz respeito a efeitos visuais.
  
: Engrenamos em uma sequencia de filmes nacionais, mas gosto disso, é bom ver que o cinema brasileiro está tentando ir pra algum lugar, pode ainda não ter achado o caminho certo, mas com certeza está tentando ir.
  
  O Complexo do Alemão é conhecido em muito lugares, inclusive fora do Brasil, e um filme rodado lá certamente pode obter certa repercussão, porém não creio que tenha força para se tornar uma super produção com outros já citados na crítica ai em cima, mas tem seus pontos positivos certamente e foi a primeira produção cinematográfica filmada no Complexo, já estava na hora de o cinema utilizar o local para alguma coisa (claro que é excelente pro governo também poder mostrar que o lugar está calmo a ponto de poder gravar um filme lá, mas não vou entrar em questões políticas aqui)
  
  Gostei do estilo de imagens do filme, o diretor utilizou algumas tomadas bem interessantes e umas passagens de cena que chamam atenção pelo modo como são trabalhadas com o movimento de câmera.
  
  Mas o destaque maior está no material humano, o elenco funciona bem em cena e demonstra um bom trabalho de grupo, mostrando um ótimo entrosamento de cena. Especialmente Caio e Milhem que apresentam personagens fortes e complexos, cheios de nuances e conflitos internos, cada um à sua maneira sendo as engrenagens principais da história e que sustentam o filme na sua maior parte.
  
  Por hoje é isso... e então, quem já viu o filme e tá com vontade de dar uma volta no teleférico do Complexo?
  
Ed: ♪ É no Complexo do Alemão, é no Complexo do Alemão, que ela vai até o Chão... ♪ Maravilha de funk... Só que não!
  
  Depois da novela das 8, que massificou ao máximo essa região do Rio de janeiro e desse e outros funks que falam sobre o lugar, agora também o cinema... é o complexooooo!!!
  
  Enfim vamos ao que interessa... achei a história muito voltada para o público brasileiro. Canso de falar sobre filmes que são feitos em Hollywood voltados para americanos, agora parece que o Brasil aprendeu a fórmula. Ok, quem mora aqui, sabe bem o que é o Complexo e os desdobramentos dessa invasão dá polícia, agora pra quem não está familiarizado, as poucas linhas de textos explicativos no início não dão a noção do panorama e depois a invasão é tratada bem superficialmente, fica focado só nos personagens. Tudo bem, essa pode ter sido a intenção, mas acho que o acontecimento da invasão poderia ter sido melhor abordado.
  
  Outra coisa, tudo bem que o clima é tenso quase o tempo todo, mas a trilha sonora de tensão entra tantas vezes, tão repetitiva e fica indo e voltando o tempo todo, que chega uma hora que não dá nem mais clima, vira a melodia padrão do filme e já não surte mais o efeito que deveria.
  
  Ahhh e pra encerrar, não dá pra entrar em detalhes, mas a cena final é beeeem exagerada, quando estava vendo, cheguei a pensar “Ahh pára! Eles não vão fazer isso...” mas fizeram! Como todo mundo já sabe, aqui não tem spoiler, mas acho que nem precisa, quando vc verem, vão entender com certeza!
  
  Marretadas para todos e até a próxima!
  
  
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