quarta-feira, 19 de março de 2014

Crítica da Semana - Minutos Atrás



   Como tu vai deixar pra depois, se nos teus bolsos só tem o agora pra gastar?
   
   Ao contrário dos últimos filmes brasileiros exibidos nas telonas, que retratavam casais em uma comédia vivida em seus mundinhos de riqueza, Minutos Atrás convida o telespectador brasileiro a viajar em uma história muito simples, num misto de comédia e drama, de verdades e mentiras, de sonhos e esperanças, proporcionando uma indiscutível reflexão existencialista.
   
   Logo no início, podemos observar a mistura bucólica do cenário P&B e personagens em cores, com um toque teatral que aposta nas alegorias. Toda história é contada de forma muito poética, com cenas lúdicas e questionamentos perturbadores. Como já citado anteriormente (veja aqui), o filme foi realizado com baixíssimo orçamento e é protagonizado por Vladimir Brichta (A Mulher Invisível), Otavio Muller (Giovanni Improtta) e Paulinho Moska (O Homem do Ano). Brichta e Muller, como sempre, garantem as cenas de forma confiante, mas a revelação do momento sem dúvida é Paulinho Moska que dá um show de interpretação se apresentando como o fiel companheiro Ruminante, além de ser responsável por uma trilha sonora invejável.
  
  Os dois amigos e o companheiro quadrúpede se arriscam em um caminho por uma estrada atemporal onde, divididos entre as esperanças do futuro e as saudades do passado, questionam a decisão a ser tomada e qual caminho seguir, eles vagam em direção ao acaso e a única certeza que possuem é a do final da estrada. Devo confessar que durante o filme, por diversas vezes, fui transportada ao universo de Alcione Araujo, na peça teatral Caravana da Ilusão, onde uma trupe alimentada de ilusões mambembes segue por um caminho de incertezas, onde “sair desse lugar, pelo menos já é um atalho pro novo”. E desta forma, Soh conduz uma história de transformação de cenários que se transformam conforme as histórias conduzidas pelas personagens; é a verdadeira insanidade da loucura com a riqueza dos sonhos. Difícil compreender? De forma alguma. O longa é apenas uma metáfora sobre os grandes dilemas do ser humanos na corrida contra o tempo que segue em direção a morte. O caminho representa a vida: as escolhas, os obstáculos, as decisões que devem ser tomadas e o final inevitável da estrada que representa a morte.
   
   É difícil conseguir prender o telespectador durante tanto tempo com um filme de poucas cores e 3 atores, mas a trama é tão intrigante e divertida que consegue alcançar seu objetivo. Na verdade, o objetivo é arriscar para encontrar melhorado e Soh arrisca no que há de mais simbólico no imaginário, levando o expectador a questionar a existência do ser humano. O longa não tem a pretensão de ser mais um filme religioso que aborda a morte como a salvação da vida condenada pelos pecados da luxúria, muito pelo contrário, ele busca valorizar a riqueza das pequenas coisas da vida, da sabedoria da simplicidade e nos mostra a importância dos sonhos para seguir nesta estrada, onde se encena para enganar a morte. E a comédia passa a ser constante no decorrer da história, incluindo até pequenas sátiras religiosas como toda insanidade possui.
   
   De fato, entre os dias de sol e as tempestades dessa estrada, fica difícil pontuar os excessos e carências, entretanto acredito que dois momentos foram excessivos: o número de cortes e movimentos cinematográficos e a divulgação subliminar de algumas marcas como lojas de comércio varejista e alimentícios.
   
   Enfim, muito do que foi apresentado aqui somente poderá ser compreendido com o filme, pois optei em manter a estrutura metafórica da proposta e apenas expressar através de comparações implícitas.
  
: Estamos todos sentindo falta das críticas né? Esse início de ano foi complicado, mas está tudo voltando ao normal! E já voltamos com um filme que, pra quem não lembra, estreou no Festival do Rio 2013 e volto a dizer que é sempre um prazer falar sobre filme de festival!
  
  Com já foi comentado na crítica, o diretor esbanja no uso do lúdico e para isso conta com a ajuda de uma linda fotografia comendada por Rodrigo Alayete, que apesar da experiência em curtas, faz sua estreia em um longa metragem, e deu conta do recado muito bem. O preto e branco valoriza os detalhes e realça a sensação do imaginário, misturado ao universo dos personagens que buscam os tons para o seu caminho.
  
  Um filme que foge da enxurrada de comédias besterol que inunda o cinema brasileiro ultimamente e que consegue passar humor, drama, reflexão e esperança na dose certa, sem se tornar cansativo ao espectador.
  
  O destaque especial vai pra trilha sonora, autoral e criativa de Paulo Moska e André Abujamra (Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!), que entrega um trabalho que se encaixa perfeitamente com a essência do filme. Também nada mais justo, já que a letra das músicas, segundo o próprio diretor, originalmente eram pra ser falas do personagem Ruminante e foram transformadas em música por sugestão do próprio Paulinho, enquanto o personagem se tornou "mudo". Uma escolha mais do que acertada que valoriza imensamente o personagem e dá um toque mágico à trilha, que remete as nostálgicas cantigas populares com nuances das antigas ladainhas da cultura popular brasileira.
  
Ed: Quem é que não gosta de umas ferias prolongadas não é?!? Mas estamos aqui de volta e se o douradinho tá animado por pegar uma crítica de festival logo de cara, vcs podem imaginar a minha animação, né? ¬¬

Nesse tipo de filme o melhor que posso fazer é me pegar em alguns pontos técnicos. Como por exemplo, a câmera que em alguns momentos é utilizada com uns movimentos que fogem completamente do contexto da história, e gera um incompatibilidade com o contexto geral apresentado.
  
  Uma coisa que me chamou muito a atenção e que não posso deixar passar é a estranha presença de marcas famosas e conhecidas no adereço do casaco plástico do Nildo. Que idéia foi aquela, não posso supor que foi sem querer, pois seria muito desleixo para uma produção profissional, então o que foi?!? A presença das logos e marcas em meio a um universo de lúdico e subjetivo, que busca constantemente contato com o imaginário e o interior de cada um, chama atenção de forma abrupta e traz um choque com o real de uma forma que não condiz com a ideia da história. Se foi proposital, não teve um efeito positivo, por tanto creio que não agiu como o esperado, e se foi um tentativa de merchandising, devo dizer que foi de muito mal gosto...
  
É... acho que ficamos por aqui
  
  Ficha Técnica do Filme
  
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